Setembro Verde: idosos podem ser doadores vivos de órgãos, esclarece especialista do Humap-UFMS
Doação em vida não tem limite máximo de idade para todos os órgãos, mas avaliação médica é individualizada e considera riscos para o doador.

A campanha Setembro Verde reforça a importância da doação de órgãos e tecidos, um ato que pode salvar vidas e contribuir para a recuperação da saúde de milhares de pessoas. No Brasil, 49.489 pessoas aguardam atualmente por um transplante, segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes.
Embora grande parte das doações seja realizada por pessoas falecidas, também é possível doar órgãos e tecidos em vida, inclusive por pessoas idosas, com 60 anos ou mais. Não existe um limite máximo de idade que se aplique a todos os casos, mas a possibilidade de doação depende de uma avaliação médica individualizada.
De acordo com o enfermeiro Guilherme Fernandes, coordenador da equipe de Doação de Órgãos e Tecidos do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS/HU Brasil), idosos passam pelo mesmo processo de avaliação dos demais potenciais doadores vivos, porém a análise precisa ser criteriosa para avaliar possíveis riscos futuros.
“A doação em vida de órgãos por parte de idosos segue os mesmos critérios de qualquer pessoa, verificando-se a viabilidade e se não existe contraindicação, mas é preciso ter uma análise criteriosa para não causar danos à saúde desse doador. Esse é o principal critério médico”, explica.
Avaliação considera condições de saúde
Não existe um único exame capaz de determinar se uma pessoa idosa pode ou não ser doadora viva. A avaliação é individualizada e pode envolver exames de sangue e urina, análise da função renal, exames de imagem e avaliação cardiovascular.
A equipe também considera o estado geral de saúde, a expectativa de vida, a possibilidade de o doador permanecer saudável após a retirada do órgão e se os riscos envolvidos no procedimento são aceitáveis.
A segurança tanto do doador quanto do receptor é um dos principais critérios considerados antes da realização do transplante.
Quais órgãos podem ser doados em vida
Segundo Guilherme Fernandes, em casos de doação em vida, podem ser doados um dos rins, parte do fígado, parte do pulmão e medula óssea.
A retirada somente é considerada quando a equipe médica responsável pelo transplante avalia que o procedimento pode ser realizado sem expor o doador a riscos considerados inaceitáveis no curto ou longo prazo.
Idade pode influenciar a avaliação
A idade avançada, isoladamente, não exclui automaticamente uma pessoa de todas as possibilidades de doação em vida. No entanto, com o avanço da idade, aumenta a possibilidade de condições como hipertensão, diabetes e alterações da função renal, o que pode exigir uma investigação mais detalhada.
“A idade avançada pode contraindicar a doação de órgãos em vida se ela comprometer as condições ideais do doador, além de expor essa pessoa a um procedimento que, pela idade avançada, possa ser prejudicial”, ressalta o enfermeiro.
O especialista também explica que a idade pode ser considerada tanto nas condições do doador quanto na qualidade do órgão destinado ao receptor. A decisão, porém, depende da avaliação da equipe médica e de transplante, em conjunto com o doador e o receptor.
Há ainda critérios específicos conforme o órgão. Para a doação de parte do fígado, por exemplo, o especialista cita uma faixa etária de 16 a 50 anos. Já para a doação de um dos rins, não há limite máximo de idade, sendo o estado de saúde do doador o principal fator considerado.
Exames laboratoriais e de imagem são utilizados para avaliar as condições dos órgãos e tecidos. As equipes também costumam realizar exames de sorologia para identificar doenças que possam contraindicar a doação.
Parentesco e autorização judicial
A legislação brasileira permite a doação entre parentes até o quarto grau e cônjuges sem necessidade de autorização judicial.
Nos casos em que não existe esse grau de parentesco, a doação também pode ser realizada, mas depende de autorização judicial.
A idade do doador não altera essa exigência legal.
Família tem papel de apoio
Embora a família possa ter um papel importante como rede de apoio durante o processo de decisão, a doação em vida não depende de autorização familiar nos casos previstos para um doador maior de idade.
“A família é importante no contexto de apoio na tomada de decisão, mas para ser doador vivo basta ser maior de idade, então, ao contrário dos casos em que o doador é um paciente que faleceu, não há necessidade de autorização”, conclui Guilherme Fernandes.
