Humap-UFMS alerta para sinais do câncer de intestino, doença que também atinge pessoas jovens
Sangue nas fezes, dor abdominal persistente, anemia e mudanças no hábito intestinal estão entre os sinais de alerta; especialista orienta sobre diagnóstico e tratamento pelo SUS.

O câncer de intestino também pode atingir pessoas jovens, e reconhecer os sinais de alerta é fundamental para buscar avaliação médica e evitar atrasos no diagnóstico. O alerta é do Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian (Humap-UFMS), em Campo Grande, que orienta sobre sintomas, fatores de risco e formas de investigação da doença pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O tema ganhou destaque após a morte da atriz e cantora Lua Blanco, aos 39 anos, em decorrência de um câncer de intestino. Outros casos conhecidos, como os do ator Chadwick Boseman, que morreu aos 43 anos, e da cantora Preta Gil, que morreu aos 50 anos, também chamaram a atenção para a doença.
Para esclarecer as principais dúvidas, o médico Odinilson Almeida Fonseca, da área de Coloproctologia do Humap-UFMS, vinculado à HU Brasil, explica que o câncer colorretal pode evoluir silenciosamente e apresentar sintomas que, em alguns casos, são confundidos com problemas intestinais benignos.
Quais são os sinais de alerta?
O câncer colorretal é um tumor maligno que atinge o cólon e o reto, partes do intestino grosso. Mais de 90% dos casos são carcinomas, e muitos se desenvolvem a partir de pólipos, pequenas lesões na parede intestinal que podem evoluir para tumores malignos ao longo do tempo.
Nas fases iniciais, a doença pode não apresentar sintomas. Quando eles aparecem, podem ser confundidos com hemorroidas, síndrome do intestino irritável ou outras condições.
Entre os principais sinais de alerta estão:
- Sangue vivo, escuro ou misturado às fezes;
- Mudanças persistentes ou recorrentes no hábito intestinal, como diarreia ou constipação;
- Dor ou desconforto abdominal frequente;
- Sensação de evacuação incompleta;
- Perda de peso sem causa aparente;
- Anemia, palidez, fraqueza ou cansaço persistente.
O sangramento nem sempre é visível. Pequenas perdas de sangue ao longo do tempo podem provocar anemia, causando fraqueza e cansaço. Por isso, a ausência de sangue aparente nas fezes não descarta a necessidade de investigação.
Uma revisão científica publicada na revista JAMA Network Open, que reuniu 81 estudos e dados de mais de 24,9 milhões de pessoas com menos de 50 anos, identificou o sangramento retal como o sintoma mais frequente entre os pacientes com câncer colorretal de início precoce, presente em 45% dos casos analisados. Dor abdominal foi registrada em 40% e alterações do hábito intestinal em 27%.
O estudo também apontou um intervalo médio de 6,4 meses entre o início dos sintomas e o diagnóstico. Os percentuais se referem a pessoas que tinham a doença, não à probabilidade de alguém com esses sintomas desenvolver câncer.
Câncer colorretal também afeta pessoas jovens
Embora o risco aumente com a idade, estudos internacionais identificaram crescimento da incidência de câncer colorretal entre pessoas de 25 a 49 anos em 27 das 50 populações analisadas em uma pesquisa publicada na revista The Lancet Oncology.
Em 20 dessas populações, o aumento entre os mais jovens foi mais rápido do que entre adultos de 50 a 74 anos ou ocorreu apenas na faixa etária mais jovem. O Brasil, porém, não integrou o conjunto analisado, portanto os resultados não representam uma estimativa direta da situação brasileira.
No país, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 53.810 novos casos de câncer de cólon e reto por ano no triênio 2026–2028, considerando homens e mulheres. Para a Região Centro-Oeste, a estimativa é de 3.900 casos anuais.
Além da idade, fatores que podem aumentar o risco incluem histórico familiar da doença, síndromes hereditárias, antecedentes pessoais de pólipos avançados e doenças inflamatórias intestinais, como retocolite ulcerativa e doença de Crohn.
Sedentarismo, obesidade, tabagismo, consumo de bebidas alcoólicas e padrões alimentares desfavoráveis também estão associados ao risco.
Ter menos de 50 anos não significa que sintomas persistentes devam ser ignorados. Ao mesmo tempo, a realização de colonoscopia em pessoas jovens sem sintomas não é necessária para todos: a indicação depende da avaliação clínica, dos antecedentes e dos fatores de risco individuais.
Rastreamento e investigação são diferentes
O rastreamento é destinado a pessoas sem sintomas e busca identificar sinais de uma possível doença antes do aparecimento de manifestações clínicas. Já quem apresenta sangramento nas fezes, anemia sem causa esclarecida, perda de peso involuntária ou alterações persistentes no funcionamento intestinal precisa de avaliação médica, independentemente da idade.
Em outubro de 2026, o Ministério da Saúde anunciou a distribuição inicial de 400 mil testes imunoquímicos fecais (FIT) para ampliar o rastreamento do câncer colorretal pelo SUS. A implementação está prevista para ocorrer gradualmente a partir de novembro, inicialmente em capitais e municípios com mais de 500 mil habitantes, para homens e mulheres assintomáticos de 50 a 75 anos.
O teste detecta pequenas quantidades de sangue oculto nas fezes. Um resultado positivo não confirma câncer, mas indica a necessidade de avaliação e, conforme o protocolo, colonoscopia para investigar a origem do sangramento.
A estratégia de rastreamento não substitui a investigação de sintomas. Pessoas com sinais de alerta devem procurar atendimento sem esperar a implantação do programa no município ou atingir a idade recomendada para o rastreamento.
Como buscar diagnóstico pelo SUS
A investigação pode começar na Unidade Básica de Saúde (UBS) ou na equipe de Saúde da Família. O profissional avalia os sintomas, a duração das alterações, os antecedentes pessoais, os medicamentos em uso e o histórico familiar.
Conforme o caso, podem ser solicitados hemograma, exames relacionados à deficiência de ferro e outros testes laboratoriais. A equipe também avalia a necessidade de encaminhamento para gastroenterologia, coloproctologia ou outro serviço especializado.
A colonoscopia é um dos principais exames para investigar o câncer colorretal. O procedimento permite visualizar o interior do intestino e coletar amostras para biópsia, que podem confirmar o diagnóstico.
A Lei nº 13.896/2019 estabelece prazo de até 30 dias para a realização dos exames necessários à elucidação de uma suspeita de câncer, quando houver solicitação médica fundamentada. O prazo se refere à realização dos exames indicados e não significa que todo o processo diagnóstico estará necessariamente concluído nesse período.
Tratamento depende da localização e do estágio da doença
Quando a biópsia confirma o câncer, são realizados exames para avaliar a extensão da doença. A investigação pode incluir tomografias de tórax, abdome e pelve. Nos tumores do reto, a ressonância magnética da pelve pode ajudar a determinar a extensão local e orientar o tratamento.
A avaliação inicial também pode incluir exames laboratoriais, como hemograma e testes das funções renal e hepática. O antígeno carcinoembrionário (CEA) pode ser utilizado como referência para acompanhamento, mas não é suficiente, isoladamente, para diagnosticar a doença.
O tratamento pode envolver cirurgia, quimioterapia, radioterapia — especialmente nos tumores do reto — ou uma combinação dessas modalidades. A escolha depende da localização e do estágio do tumor, de suas características e das condições clínicas do paciente.
Em Mato Grosso do Sul, o acesso aos serviços ocorre conforme os fluxos assistenciais e a regulação do SUS. O Humap-UFMS e o Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS) integram a rede pública de saúde, com serviços e atribuições próprios. A unidade de referência depende da avaliação clínica e do encaminhamento pela rede.
Quando procurar atendimento de urgência
Sangramento nas fezes, anemia sem causa esclarecida, emagrecimento involuntário e mudanças persistentes no hábito intestinal justificam avaliação médica, mesmo em pessoas jovens.
Já dor abdominal intensa, distensão importante, vômitos persistentes ou incapacidade de evacuar e eliminar gases podem indicar complicações, como obstrução intestinal, e exigem atendimento de urgência.
A orientação do Humap-UFMS é que alterações persistentes sejam investigadas. Nem todo sintoma intestinal indica câncer, mas a avaliação clínica e o acesso oportuno aos exames são fundamentais para identificar a causa e definir o tratamento adequado.
