Estudo alerta que melanoma também pode surgir fora da pele e reforça importância do diagnóstico precoce no Brasil
Boletim da Fundação do Câncer analisou 42.255 registros e identificou casos de melanoma ocular, de mucosa e em órgãos internos.

Um estudo da Fundação do Câncer alerta que o melanoma também pode surgir fora da pele, em estruturas como os olhos, mucosas e órgãos dos sistemas genital e digestório. Embora essas formas sejam menos frequentes, elas podem ser mais agressivas e letais, devido ao maior risco de metástase. A publicação reforça a importância do diagnóstico precoce e foi divulgada neste mês, com dados analisados até terça-feira (15).
A 12ª edição do boletim Análises e Tendências em Câncer, intitulada Melanoma: nem sempre na pele, avaliou informações da plataforma Info.Oncollect, que reúne registros hospitalares de oncologia no Brasil. O estudo analisou 42.255 casos: 92,2% eram de melanoma cutâneo, 5,7% oculares e 2,5% de mucosa.
Melanoma extracutâneo pode ter sintomas inespecíficos
Entre 1990 e 2021, foram registrados 1.324 novos casos de melanoma extracutâneo no país, sendo 523 em homens e 801 em mulheres. O olho foi a principal localização primária, seguido pelos órgãos genitais e pelo sistema digestório.
Dos 993 casos de melanoma ocular analisados, 447 ocorreram em homens e 546 em mulheres. Segundo a Fundação do Câncer, esse tipo pode permanecer assintomático no início e ser identificado apenas em exames de rotina. Entre os possíveis sinais estão visão embaçada, flashes luminosos, manchas no campo visual e perda visual.
Prevenção e acesso ao tratamento
O estudo aponta que o enfrentamento do melanoma cutâneo e extracutâneo depende de prevenção, diagnóstico precoce, qualificação dos registros e acesso oportuno ao tratamento. Também recomenda a articulação entre atenção básica, dermatologia, oftalmologia, oncologia e outras especialidades.
O consultor médico da Fundação do Câncer e coordenador do estudo, Alfredo Scaff, afirmou que o câncer pode ser curado quando diagnosticado e tratado precocemente. Pelo Sistema Único de Saúde (SUS), o tratamento padrão do melanoma inclui a cirurgia da lesão primária e a remoção dos linfonodos envolvidos.
Entre 2014 e 2023, a cirurgia foi o principal tratamento inicial para o melanoma de pele em todas as regiões do país, correspondendo a 84,7% dos procedimentos registrados. O Sudeste apresentou o maior percentual, com 89,6% dos casos, enquanto o Norte teve o menor.
A maior parte dos pacientes realizou o tratamento na própria região de residência. A exceção foi o Centro-Oeste, onde houve maior necessidade de deslocamento para atendimento oncológico. Para a Fundação do Câncer, o cenário indica um gargalo no acesso à assistência especializada.
Imunoterapia ampliou resposta em casos avançados
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) informa que a quimioterapia é amplamente utilizada no tratamento de melanomas. Em 2016, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou no Brasil medicamentos da classe anti-PD-1, como nivolumabe e pembrolizumabe. Mais recentemente, também foi aprovado o tebentafuspe.
Em 2020, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) aprovou a primeira imunoterapia no SUS para o tratamento do melanoma metastático, com dois agentes anti-PD-1.
Segundo Scaff, a chegada desses medicamentos elevou a resposta aos tratamentos e a sobrevida de pacientes com melanoma avançado ou metastático. Ele afirmou que a resposta clínica passou de menos de 10% dos pacientes em quimioterapia para até 70% em casos tratados com imunoterapia.
O coordenador de Assistência do Inca, Gélcio Mendes, ressaltou, porém, que as evidências sobre o uso de imunoterapia no melanoma extracutâneo ainda são escassas. O instituto também afirma que novas tecnologias devem ser avaliadas em conjunto com terapias antigas eficazes, considerando benefícios, custos, financiamento e a estrutura necessária para sua aplicação.
Custo limita acesso no SUS
O alto custo dos medicamentos é apontado pelos especialistas como uma barreira para que pacientes do SUS tenham acesso à imunoterapia em tempo adequado. Scaff defendeu a compra centralizada de insumos pelo Ministério da Saúde e a articulação com o Complexo Econômico-Industrial da Saúde para ampliar a produção nacional e reduzir preços.
Mendes afirmou que alterações no marco legal estão em tramitação para ampliar o programa de Assistência Farmacêutica em Oncologia no SUS. Segundo ele, a expectativa é facilitar o acesso de pacientes com melanoma metastático à imunoterapia, conforme os parâmetros aprovados e pactuados pela Conitec.
O fluxo de compra, distribuição e repasse dos medicamentos aos hospitais ainda está em discussão entre os gestores. De acordo com Scaff, o fornecimento às unidades e aos centros de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia permanece em negociação intergovernamental.
Melanoma de pele representa 4% dos tumores cutâneos
A exposição à radiação ultravioleta é o principal fator de risco para os tipos de câncer de pele. O risco varia conforme o tipo de pele e a intensidade e o padrão da exposição solar. Embora o câncer de pele seja o tumor maligno mais frequente no Brasil, o melanoma representa 4% dos tumores desse órgão e tem maior potencial de disseminação.
Entre 1990 e 2021, foram registrados 30.614 casos novos de melanoma de pele no país. As mulheres foram mais afetadas, com 15.714 registros, enquanto os homens somaram 14,9 mil casos. Os locais mais atingidos foram tronco, membros inferiores e membros superiores.
Os homens tiveram mais diagnósticos na orelha, no couro cabeludo, no pescoço e no tronco. Entre as mulheres, os registros foram mais frequentes na face, nos membros inferiores e nos membros superiores.
Regiões apresentam diferenças de incidência e mortalidade
O Instituto Nacional de Câncer registrou 2.047 mortes por melanoma de pele em 2023: 1.176 entre homens e 871 entre mulheres. A taxa média entre 2020 e 2024 foi de seis óbitos por 1 milhão de habitantes, com maior registro entre homens.
As regiões com menor incidência e mortalidade apresentaram maior letalidade, segundo a análise epidemiológica. A Fundação do Câncer relaciona o cenário ao diagnóstico tardio e às barreiras de acesso à assistência especializada.
O Sul teve a maior incidência de melanoma de pele, com 44,40 casos por 1 milhão de habitantes, mais que o dobro da média nacional. Na região, o tumor ocupa a sétima posição entre os cânceres mais incidentes em mulheres e a nona entre os homens.
Para 2026, o Inca estima 9.360 novos casos de melanoma de pele no Brasil, o equivalente a 19,2 casos por 1 milhão de habitantes. As projeções fazem parte das estimativas para o triênio 2026-2028 e orientam o planejamento de políticas públicas e ações do SUS.
