Dermatite atópica vai além da pele e pode afetar sono, saúde mental e autoestima
Doença inflamatória e crônica provoca coceira intensa, feridas e impactos na rotina; 23 de setembro é o Dia Nacional de Conscientização sobre a condição.

A dermatite atópica é uma doença inflamatória e crônica que pode afetar não apenas a pele, mas também o sono, a saúde mental, a autoestima e a vida social dos pacientes. Em manifestações mais graves, a coceira intensa pode provocar feridas e deixar a pele tão sensível que até o contato com tecidos ou água pode causar dor.
A doença é marcada principalmente pela coceira, que pode ser difícil de controlar. As lesões costumam aparecer em regiões de dobras, como atrás dos joelhos, nos cotovelos e no pescoço, mas também podem atingir outras áreas do corpo.
Coceira e feridas podem provocar sofrimento intenso
A estudante de medicina Clara Emery, de 23 anos, convive com dermatite atópica desde a infância. Ela conta que já precisou tomar antibióticos para evitar infecções nas feridas provocadas pelas crises.
Nas manifestações mais severas, segundo Clara, a dor chegava a dificultar atividades simples, como deitar na cama, encostar a cabeça no travesseiro ou tomar banho.
“Tive muitas crises de choro por não saber o que fazer”, relata.
A estudante afirma que a doença também afetou sua infância, adolescência e início da vida adulta.
“Minha mãe fala que assim que eu saí da barriga, eu já tinha dermatite atópica. Eu me lembro vividamente da minha infância, a evolução da doença, os vários fatores que a desencadeavam. Foi muito angustiante conviver com essa doença.”
No caso de Clara, as manifestações também aparecem ao redor dos olhos, no rosto e nas mãos. Entre os fatores que desencadeiam ou intensificam as crises, ela cita alimentos, sol, grama, suor, fungos e ácaros.
Doença também interfere na vida social
Além dos sintomas físicos, a dermatite atópica pode provocar impactos emocionais e sociais. Clara relata que chegou a se isolar por medo de que outras pessoas vissem as feridas.
Na escola, quando tinha cerca de 10 anos, ouviu questionamentos sobre doenças contagiosas e outras condições de saúde.
“Na escola, eu tinha uns 10 anos, me perguntaram se eu tinha hanseníase, se tinha sífilis, se eu era HIV positivo. Havia muito preconceito.”
Atualmente, a estudante faz tratamento imunobiológico, que, segundo ela, ajudou a controlar as crises mais graves. O tratamento tem custo elevado e, no caso dela, é integralmente coberto pelo plano de saúde.
A dermatologista Rosana Lazzarini destaca que a dermatite atópica pode comprometer significativamente a qualidade de vida, especialmente porque a coceira intensa interfere no sono e pode afetar o rendimento escolar e profissional.
Segundo a médica, 40% das crianças que apresentam dermatite atópica terão de conviver com a doença durante a vida adulta.
Preconceito ainda é um desafio
Apesar de não ser contagiosa, a dermatite atópica ainda é alvo de estigma. As marcas deixadas pelas lesões podem levar ao afastamento do convívio social e até a situações de bullying.
“O impacto na vida da criança é grande. É uma doença crônica, há frequência de consultas, perda de aulas, afastamento social (deixa de brincar, de ir a festas) e internações que irão afetar o desenvolvimento psicossocial”, afirma Rosana.
O presidente da Associação de Apoio à Dermatite Atópica (AADA), Roberto Takaoka, também chama atenção para os efeitos sociais e emocionais da doença.
Segundo ele, pacientes podem enfrentar preconceito e bullying por falta de informação, principalmente pela percepção equivocada de que a dermatite seria contagiosa. Ele também aponta que a doença pode estar acompanhada de distúrbios do sono, depressão e isolamento social.
A associação mantém grupos de apoio para pacientes e familiares, além de materiais educativos, campanhas de conscientização e podcasts sobre a doença.
Estresse pode intensificar as crises
A jornalista Rayane Lopes, de 34 anos, moradora do Distrito Federal, teve a primeira crise de dermatite atópica aos 18 anos. Segundo ela, a manifestação inicial atingiu praticamente todo o corpo.
Atualmente, as lesões aparecem principalmente na barriga e entre os dedos das mãos. Rayane relata que períodos de estresse costumam coincidir com o surgimento ou agravamento dos sintomas.
Ela conta que, após o enterro de uma pessoa próxima, teve uma crise que provocou manchas avermelhadas e feridas pelo corpo.
“Coça muito, arde, dói, abre feridas. Além de tomar remédio, não tem muito o que fazer, é esperar passar.”
Para controlar os sintomas, ela evita utilizar bucha durante o banho e mantém a pele hidratada. Também relata situações constrangedoras causadas pelo desconhecimento de outras pessoas sobre a doença.
Diagnóstico é clínico
De acordo com Rosana Lazzarini, não existe uma causa única definida para a dermatite atópica. Fatores genéticos, ambientais e imunológicos podem contribuir para o surgimento da doença.
O diagnóstico é clínico, feito a partir da avaliação médica das lesões, da duração e evolução dos sintomas e da presença de coceira de difícil controle. Exames podem ser solicitados em algumas situações para complementar a avaliação ou afastar outras condições.
O tratamento varia de acordo com a gravidade do quadro. Entre os cuidados estão a hidratação da pele e medidas para preservar a barreira cutânea.
Hidratação é parte importante do tratamento
A orientação inclui banhos rápidos e com água que não seja quente, além do uso reduzido ou até da ausência de sabonete, conforme orientação médica.
Cremes e loções hidratantes são considerados parte importante do cuidado. A pele de quem tem dermatite atópica pode exigir hidratação de duas a três vezes ao dia.
Medicamentos também podem ser utilizados para controlar a coceira e a inflamação. Entre eles estão corticosteroides tópicos e, em casos mais graves, medicamentos imunossupressores por via oral, como metotrexato ou ciclosporina.
A fototerapia com UVB de banda estreita também pode ser indicada, principalmente para auxiliar no controle da coceira.
Casos mais graves podem necessitar de medicamentos específicos que atuam em diferentes pontos do processo inflamatório. Segundo a dermatologista, essas opções têm custo elevado e são indicadas quando outras tentativas de tratamento não apresentam resultado.
Atualmente, medicamentos mais modernos e de alto custo não estão disponíveis pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sendo encontrados apenas na rede privada de saúde.
Dia Nacional de Conscientização
O 23 de setembro é considerado o Dia Nacional de Conscientização da Dermatite Atópica, data oficializada no Brasil pela Lei nº 14.916/2024.
A iniciativa busca ampliar o conhecimento sobre a doença, reduzir o preconceito e reforçar que a dermatite atópica é uma condição crônica, não contagiosa e que pode afetar diferentes aspectos da vida dos pacientes.
