Segunda fase da Operação Lívia apreende seis adolescentes envolvidos em grupos virtuais de violência

Investigação da Polícia Civil aponta participação de adolescentes em comunidades digitais que promoviam violência, extremismo e misoginia.

Publicado em 15/09/2026 às 15:17 - do Idest, com informações do G1MS - Em Policial

Operação Lívia: 2ª fase mira 6 adolescentes após morte de menina de Naviraí.
Operação Lívia: 2ª fase mira 6 adolescentes após morte de menina de Naviraí. (Divulgação)

Seis adolescentes, com idades entre 14 e 17 anos, foram apreendidos nesta terça-feira (15) durante a segunda fase da Operação Lívia, que investiga a morte de uma menina de 13 anos, ocorrida em julho de 2026 após uma transmissão ao vivo no Discord. Segundo a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, os adolescentes faziam parte de grupos virtuais de violência e extremismo, conhecidos como “panelas”, e tiveram participação no caso.

A operação foi realizada pela Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (Depca-MS), com apoio da investigação cibernética e do CyberLab. Foram cumpridos seis mandados de busca e apreensão contra adolescentes localizados no Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul e Distrito Federal.

Investigação identificou novos integrantes

Conforme a delegada Anne Karine Sanches Trevizan, da Depca, a segunda fase da operação é resultado da análise dos celulares e de outros materiais apreendidos na primeira etapa da investigação.

A partir desse conteúdo, os policiais conseguiram identificar outras pessoas que participavam dos grupos nas redes sociais no momento da morte da adolescente.

“Continuamos as investigações para saber todas as pessoas que estavam participando dessa panela e que tiveram relação com o homicídio da Lívia”, explicou a delegada.

Segundo a Polícia Civil, cerca de 90% dos integrantes identificados até o momento são adolescentes. Um adulto também foi identificado durante as investigações.

Grupos tinham hierarquia e disputa por violência

A investigação aponta que as comunidades funcionavam como grupos organizados dentro de plataformas digitais. Havia pessoas responsáveis pela administração, outras que ajudavam a atrair novos integrantes e participantes que acompanhavam ou incentivavam os chamados “eventos”.

Segundo a polícia, os grupos funcionavam a partir de uma espécie de disputa por reconhecimento. Quanto mais extremo fosse o conteúdo produzido por uma “panela”, maior seria a visibilidade conquistada entre os integrantes.

“Eles ficam brigando entre si para ver quem é a panela mais forte, quem consegue trazer mais pessoas para o evento, quem consegue trazer mais vítimas, mais agressividade”, afirmou Anne Karine.

De acordo com a delegada, a morte de Lívia teria representado, dentro dessa lógica, o ponto máximo de violência buscado pelo grupo investigado.

Adolescentes eram atraídos pelas redes sociais

Segundo a Depca, os responsáveis pelos grupos procuravam possíveis vítimas em redes sociais e plataformas de conversa. A aproximação começava de maneira aparentemente amistosa, com o objetivo de conquistar a confiança do adolescente.

Em alguns casos, os suspeitos se passavam por pessoas da mesma idade ou do mesmo sexo da vítima.

Depois de estabelecer a relação de confiança, apresentavam os grupos e, segundo a polícia, poderiam recorrer a ameaças quando o adolescente não aceitava participar espontaneamente.

Os investigadores também encontraram situações em que os suspeitos conseguiam informações sobre familiares das vítimas, como nomes, telefones e fotografias. Esses dados eram utilizados para intimidar os adolescentes.

“Eles começam a fazer ameaças. Eles têm grupos que conseguem localizar material da família, da vítima, telefone. Então começam a fazer uma ameaça em cima da cabeça do adolescente”, explicou a delegada.

A estratégia fazia com que muitas vítimas tivessem medo de contar aos pais o que estava acontecendo.

Recompensa não era necessariamente dinheiro

A polícia afirma que a participação nas “panelas” não tinha necessariamente como objetivo obter dinheiro. A principal recompensa seria o reconhecimento dentro das próprias comunidades.

Em alguns casos, porém, os investigadores encontraram situações em que benefícios eram oferecidos para estimular a participação das vítimas, incluindo moedas virtuais de jogos, como Roblox.

Segundo a delegada, também havia situações em que as vítimas eram manipuladas por meio de ameaças e acabavam obedecendo às ordens dos integrantes.

Investigação encontrou outras possíveis vítimas

Durante a perícia do material apreendido na primeira fase, os investigadores identificaram outras possíveis vítimas dos grupos. Nem todas chegaram a registrar boletim de ocorrência.

Segundo Anne Karine, algumas vítimas não contaram aos pais que estavam sendo ameaçadas ou manipuladas.

A investigação também encontrou registros de violência praticada contra outras meninas. Os casos não necessariamente estão relacionados a mortes, mas fazem parte da apuração sobre a atuação dos grupos.

A polícia continua trabalhando para identificar todas as pessoas envolvidas e verificar a participação individual de cada integrante.

Grupos utilizavam diferentes plataformas

De acordo com a delegada, os grupos circulavam por diferentes plataformas digitais. No caso da morte de Lívia, os investigadores encontraram movimentações relacionadas ao episódio no Telegram, Discord, Instagram e Zangi.

Para Anne Karine, a atuação das próprias plataformas também é uma parte importante do combate a esse tipo de grupo.

A delegada afirma que transmissões com conteúdo de violência deveriam ser interrompidas rapidamente para evitar que outras pessoas acompanhem e incentivem os atos.

“Nosso objetivo é desmantelar essas organizações, esses grupos”, disse.

Polícia aponta presença de extremismo e misoginia

A Polícia Civil afirma que os grupos investigados são formados a partir de ideologias extremistas. Entre os conteúdos identificados estão violência, misoginia e referências ao neonazismo.

Segundo a delegada Anne Karine Sanches Trevizan, integrantes demonstram admiração por Adolf Hitler e utilizam referências ao nazismo e a massacres em nomes de usuário e outras identificações na internet.

Na primeira fase da Operação Lívia, a Polícia Civil e o Ministério da Justiça já haviam apreendido materiais de apologia ao neonazismo, armas e conteúdos de abuso sexual infantil com adolescentes investigados.

“Todos eles são extremistas. Ainda que não tenha sido apreendido objetos neonazistas, eles são sim, eles têm adoração a Hitler, eles utilizam a numeração 1945, eles utilizam o username relacionado com o massacre”, explicou a delegada.

Para a polícia, a dinâmica dos grupos também é marcada pela misoginia e pela disputa entre os integrantes para elevar o nível de violência e conquistar reconhecimento dentro das comunidades.

Depca orienta pais sobre riscos no ambiente virtual

A Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente orienta os pais a acompanharem as atividades dos filhos na internet e não considerarem que o adolescente está seguro apenas por estar dentro de casa.

A delegada recomenda o uso de ferramentas de controle parental, mas ressalta a importância do diálogo. Segundo ela, os responsáveis devem conhecer, dentro do possível, as plataformas utilizadas pelos filhos e conversar sobre os riscos de interagir com desconhecidos.

“Hoje o perigo não está só na rua. O perigo também está dentro do celular do seu filho”, afirmou.

A orientação é que mudanças de comportamento, medo de mostrar o celular, isolamento ou situações que indiquem que o adolescente está sendo ameaçado sejam levadas a sério.

Para a polícia, o ambiente virtual deve ser tratado pelos pais como uma extensão da vida real, considerando que, assim como existem lugares seguros e perigosos fora da internet, também existem diferentes tipos de riscos nas plataformas digitais.