Incêndios: Produtores rurais de São Gabriel cobram Energisa e CCR para manutenções preventivas

Cerca de 10 mil hectares foram atingidos por incêndios nos municípios de Camapuã e São Gabriel do Oeste, segundo levantamentos dos produtores. Prejuízo econômico é incalculável.

15/10/2020 às 13:31 | do Idest, JWC

Os produtores rurais de São Gabriel do Oeste e região estão cobrando das concessionárias de energia (Energisa) e que administra a rodovia BR-163 (CCR MSVias) manutenções preventivas para que incêndios como os que ocorreram esse ano não se repitam na região nas mesmas proporções.

Uma reunião foi realizada no último dia 05 de outubro e contou com representantes das empresas, além do Sindicato Rural de São Gabriel do Oeste, Prefeitura Municipal, produtores, Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Campo Grande e de São Gabriel do Oeste, além de advogados autônomos. “Pedimos para eles prestarem esclarecimentos para o plano de ação que eles tinham para este tipo de situação e nenhuma delas tem. O produtor não quer fogo em sua propriedade, estamos sendo crucificados e o erro não é nosso”, disse o vice-presidente do Sindicato Rural de São Gabriel do Oeste, Renê Miranda Alves. 

Incêndio em fazenda na região de São Gabriel do Oeste.

Levantamentos dos produtores apontam que dos 15 focos de incêndio registrados no meio rural, dez  tiveram origem na rede de eletrificação, normalmente contato de fios de alta tensão com galhos de árvores, ruptura de fios ou desgaste de chaves ou isoladores; já outros quatro tiveram origem das margens da rodovia BR-163, o último na região do Areado que iniciou às margens da MS-142.

Segundo os produtores cerca de 10 mil hectares foram atingidos por incêndios nos municípios de Camapuã e São Gabriel do Oeste nos últimos meses. Já o prejuízo econômico aos produtores é incalculável. “Trabalho em um grupo familiar, onde também foi atingido por um incêndio, nessa área o trabalho de trinta anos de solo foi embora em questão de 15 minutos. Nessas áreas queimadas o investimento para recuperar a estrutura do solo será bem maior. Para o produtor reconstruir esse solo novamente é um trabalho de 15 a 20 anos, até colocar a mesma quantidade de matéria orgânica, microrganismos para ajudar no equilíbrio do solo”, disse o produtor Alcir Eibel. 

Vídeo de incêndio na região de Camapuã. Fonte: Redes Sociais

Para os produtores, a falta de manutenção e investimento em estrutura agravou a situação na região. “Grande parte dessa área queimada foi de reserva e de preservação permanente, morraria, que não tínhamos acesso para combater o fogo. Justamente pelas linhas de transmissão de energia passarem dentro dessas áreas de reserva e falta de manutenção que o problema se agravou mais. Por exemplo, um galho de árvore pegando, uma cruzeta podre dessa tem mais possibilidade de fogo do que se fosse numa área limpa e com manutenção”, disse Renê.

Além dos fatores de falta de manutenção, os produtores apontam também para a sobrecarga da rede, que não recebeu ajuste para atender a demanda atual. “Hoje temos silos, granjas, fabricas de ração, a rede é antiga, então tem que melhorar as condições”, disse Alcir Eibel.

Produtores solicitam manutenção preventiva e estruturação da rede elétrica. Foto: Divulgação

“Hoje, como produtor, vivemos um conflito, tem a exigência muito grande do governo para aumentarmos a eficiência da produção, e para sobrevivermos temos que ser muito eficientes, porque se não acabamos saindo da atividade e caindo em dividas, porém, em contra partida não vem do governo e suas terceirizadas o que precisamos de estrutura básicas. Não temos estradas e nem pontes em condições, não temos infraestrutura de energia, a telefonia nossa é vergonhosa, internet nem se fala. Na realidade estamos sobrevivendo, e se não aumentar a estrutura para sermos eficientes, estamos correndo o risco de entrar em colapso”, explicou Renê.

Área atingida por incêndio na região de São Gabriel do Oeste. Foto: Divulgação

Da reunião com representantes da Energisa e CCR MSVias, os produtores rurais irão encaminhar documento ao Ministério Público solicitando um plano de ação dessas empresas para prevenção de incêndios. “Vai desde a estruturação da rede elétrica e manutenção e da CCR a manutenção das rodovias além dos quatro metros previstos em contrato de concessão. Eles têm 80 metros de faixa de domínio, porém, a conservação e manutenção eles tem obrigação apenas de quatro metros na lateral do pavimento”, disse Alcir. “A faixa de domínio é da rodovia federal e já foi desapropriado do produtor, eles [CCR] se isentam da limpeza além dos quatro metros e o produtor não pode entrar para limpar aquilo”, completou.

Segundo o advogado especialista em direito ambiental e agrário, Giulliano Mosena, vice-presidente da OAB/MS de São Gabriel do Oeste, a situação é bastante delicada e merece ser tratada com o máximo de atenção. "A concessionária de energia foi alertada da situação e deve fazer os ajustes para a boa prestação dos seus serviços. Agora não podem alegar qualquer desconhecimento e é certo que, em se omitindo, medidas judiciais poderão e serão tomadas, pois os prejuízos aos produtores e a todo o município, incluindo ambiental, são enormes! De igual forma, esperamos contar com a colaboração da CCR/MSVias, que sempre atendeu bem às solicitações dos produtores. É hora de unirmos forças para combater este inimigo perigoso", disse Giulliano.

Combate aos incêndios na região

Um dos fatores cruciais para que os problemas dos incêndios na região não fossem de proporções maiores foram as brigadas de incêndio criadas pelos produtores e pela Prefeitura Municipal de São Gabriel do Oeste.

Vários produtores se uniram e montaram uma brigada de incêndio que conta com carreta para possibilitar o transporte mais rápido das máquinas, caminhão pipa, trator com grade e pulverizadores.

Também participou dos combates a brigada de incêndio da Prefeitura Municipal, através da secretaria de Infraestrutura, que conta com carregadeira, escavadeira, patrola e caminhões pipa.

“Se não fossem essas duas brigadas, o problema nosso seria muito maior. Montamos um grupo de WhatsApp, com 233 participantes, entre funcionários e produtores, e quando somos acionados o combate é mais rápido. Sindicato Rural e Prefeitura entraram fazendo um planejamento estratégico de combate ao fogo, junto com os agricultores”, disse Renê.

CCR MSVias

Nossa equipe entrou em contato com a assessoria de comunicação da CCR MSVias e questionamos sobre a solicitação dos produtores.

“A CCR MSVia informa que os serviços de conserva e manutenção da faixa de domínio continuam sendo realizados, como prevê o contrato de concessão, executando a roçada em até 4 metros de largura a partir do bordo do pavimento, o que vem sendo realizado pelas equipes da Concessionária”, destacou em nota a concessionária.

Questionamos da possibilidade de aumentar este espaço de manutenção, e fomos informados que por ser contratual, não há como alterar.

Energisa

Também entramos em contato com a Energisa, porém, até a publicação desta matéria não obtivemos resposta quanto as solicitações dos produtores.

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