Pesquisa aponta que 32% dos usuários de internet no Brasil sofreram tentativas de golpe com dados pessoais
Levantamento nacional ouviu 2,5 mil pessoas e também avaliou práticas de empresas e órgãos públicos sobre proteção de dados.

Cerca de 45 milhões de usuários de internet com 16 anos ou mais no Brasil, o equivalente a 32% do total, relataram ter sofrido tentativas de golpe com o uso de dados pessoais. Além disso, 20% disseram ter sido vítimas efetivas desse tipo de crime. Os dados fazem parte da terceira edição da pesquisa Privacidade e proteção de dados pessoais: perspectivas de indivíduos, empresas e organizações públicas no Brasil, apresentada nesta segunda-feira (31), em São Paulo.
O levantamento foi realizado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), área do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), vinculado ao Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). A pesquisa nacional ouviu 2,5 mil pessoas em entrevistas online, em dezembro de 2025.
Aplicativos de mensagem são principal canal
Segundo Winston Oyadomari, um dos coordenadores do estudo, esta foi a primeira vez que o Cetic.br perguntou aos entrevistados se eles identificavam tentativas de golpe pela internet ou se haviam sido vítimas. Ele afirmou que o tema pode ser difícil de abordar porque as pessoas costumam ficar constrangidas e abaladas com as situações.
Os aplicativos de mensagem foram apontados como o principal canal de abordagem. Na sequência aparecem ligações telefônicas, sites ou aplicativos falsos, SMS, e-mails e redes sociais. Oyadomari ressaltou que mesmo pessoas com menor uso da internet ou com pouca familiaridade com tecnologia estão sujeitas às tentativas.
Entre os usuários que acessam a internet apenas pelo celular, foram relatadas mais tentativas de golpe por meio de sites ou aplicativos falsos do que entre aqueles que também utilizam computador. Para o coordenador, isso pode estar relacionado a limitações ou dificuldades proporcionadas pelo dispositivo de acesso.
Impactos incluem estresse e perda de acesso
A maioria dos entrevistados mencionou estresse ou mal-estar após as tentativas de golpe. De acordo com Oyadomari, os efeitos também atingiram emocionalmente familiares das vítimas.
O coordenador afirmou que os golpes não envolvem apenas roubo de dinheiro ou de dados bancários. Também há casos de perda de acesso a contas, como o controle do e-mail utilizado no Gov.br, o que pode impedir o cidadão de acessar serviços públicos, políticas de assistência e outras políticas públicas.
Escolaridade influencia percepção dos danos
O estudo apontou que pessoas com menor escolaridade relataram com mais frequência as situações investigadas. Segundo Oyadomari, esse grupo está tão sujeito aos golpes quanto os demais, mas tende a sofrer consequências mais graves.
Para o coordenador, a proteção de dados precisa ser discutida junto com o desenvolvimento de capacidades e habilidades digitais. Ele avaliou que não basta promover uma cultura de proteção de dados sem considerar a necessidade de ampliar a preparação dos usuários para um ambiente digital mais seguro.
Uso de inteligência artificial gera preocupação
A pesquisa também investigou, pela primeira vez, a relação dos brasileiros com ferramentas de inteligência artificial generativa sob a perspectiva da privacidade. O uso profissional ou acadêmico foi o mais citado, mas também apareceram aplicações para aconselhamento, suporte emocional e companhia.
Entre os dados e informações compartilhados com essas ferramentas estão preferências e gostos pessoais, sentimentos e emoções, dados de saúde, como sintomas e exames, e fotos dos usuários ou de pessoas conhecidas. Finanças pessoais e dados como nome, endereço, data de nascimento ou CPF foram os menos mencionados.
A maioria dos usuários de inteligência artificial generativa afirmou estar preocupada ou muito preocupada com o uso de dados pessoais pelas empresas responsáveis pelas plataformas. A preocupação foi maior entre pessoas com escolaridade mais alta.
Oyadomari observou que o uso das ferramentas e a preocupação com os dados ocorrem simultaneamente. Segundo ele, os usuários reconhecem os benefícios das plataformas, mas não têm clareza sobre como as informações são utilizadas. O compartilhamento de dados de saúde foi apontado como uma preocupação adicional, por se tratar de informação pessoal sensível.
Empresas ampliam estruturas de proteção
O estudo também analisou empresas brasileiras. Entre as que responderam às questões, 69% informaram armazenar dados pessoais de clientes ou usuários. A biometria foi o tipo de informação mais armazenado, seguida por dados de saúde. Entre as empresas que guardam dados, 9% disseram armazenar informações pessoais de menores de 18 anos. O percentual chegou a 21% nas empresas de grande porte e a 19% no setor de alojamento e alimentação.
Segundo o levantamento, 40% das empresas realizavam reuniões específicas sobre proteção de dados, 32% haviam contratado consultorias ou assessorias externas especializadas, 20% mantinham uma área ou funcionários dedicados ao tema e 16% tinham nomeado formalmente um encarregado de proteção de dados. As medidas mais citadas foram a alteração de contratos, a criação de políticas para o uso de dados de funcionários e o desenvolvimento de políticas de privacidade.
Órgãos públicos e escolas registram avanços
No setor público, aumentou a presença de áreas ou responsáveis por privacidade, especialmente nas administrações municipais. A proporção de órgãos públicos que dedicaram parte da estrutura ao tema passou de 36%, em 2023, para 42%, em 2025, impulsionada por prefeituras de até 10 mil habitantes.
A adoção de políticas de segurança da informação em estabelecimentos públicos de saúde subiu de 24% para 28%. Nos hospitais públicos com mais de 50 leitos, o percentual chegou a 54%. O estudo também apontou que a realização de treinamentos em segurança da informação para equipes da rede pública dobrou, de 16%, em 2023, para 32%, em 2025.
Nas escolas públicas, a proporção de instituições com documentos sobre proteção de dados e segurança da informação passou de 37%, em 2020, para 54%, em 2025. Entre os gestores que não utilizavam programas, sistemas ou plataformas na gestão escolar, 39% disseram que a preocupação com privacidade e proteção de dados estava entre os principais desafios para adotar esses recursos.
Para 25% dos gestores, a segurança dos dados também era um dos motivos para não utilizar dispositivos, plataformas ou outros recursos educacionais digitais. Entre as razões citadas estavam os riscos de vazamento ou roubo de dados dos alunos e a falta de clareza nos termos de uso.
Além disso, 73% dos gestores disseram ter recebido orientações da rede de ensino sobre o tratamento de dados de alunos e profissionais, enquanto 46% das instituições realizaram debates ou palestras sobre o tema, principalmente para professores e funcionários.
Para Renata Mielli, coordenadora do CGI.br, embora os usuários precisem ter atenção às informações que compartilham, a responsabilidade pela proteção dos dados não pode ser transferida a eles. Segundo ela, empresas e organizações públicas devem adotar práticas de governança, transparência e segurança para garantir o uso responsável dessas informações.
