MPF cobra mudança em conta de água de concessionária após apontar risco de contaminação por agrotóxicos
Sanesul terá 30 dias para ajustar faturas e relatório anual após questionamento sobre dados do Rio Dourados.

A Empresa de Saneamento de Mato Grosso do Sul (Sanesul) terá de alterar em Dourados as informações sobre a qualidade da água distribuída no município, após recomendação do Ministério Público Federal (MPF) diante de contradições sobre o risco de contaminação do Rio Dourados por agrotóxicos e pesticidas. A empresa terá 30 dias para fazer as mudanças, em decisão baseada em dados do Painel de Monitoramento de Resíduos de Agrotóxicos em Águas Superficiais de Mato Grosso do Sul, desenvolvido pela Embrapa Agropecuária Oeste.
Contradição nas faturas
Segundo o MPF, as contas de água de março e abril de 2026 informavam que a bacia do Rio Dourados sofre influência de atividades agrícolas e pecuárias, com possibilidade de contaminação, mas também afirmavam que não havia "riscos evidentes de sofrer contaminação". Para o órgão, a redação é contraditória porque omite a presença frequente de agrotóxicos no manancial e descumpre regras de transparência previstas nas leis de defesa do consumidor e de saneamento básico.
A recomendação determina que as faturas passem a trazer um resumo dos resultados das análises, com destaque claro para os riscos que podem afetar a saúde da população. A Sanesul também deverá orientar os consumidores sobre medidas de prevenção e retirar o trecho que afirma não haver riscos evidentes de contaminação.
Dados sobre o Rio Dourados
O Painel de Monitoramento de Resíduos de Agrotóxicos em Águas Superficiais de Mato Grosso do Sul aponta que o herbicida atrazina foi encontrado em 84,44% das amostras coletadas no Rio Dourados. Das 630 análises realizadas até 24 de abril de 2026, 532 detectaram a substância.
O levantamento também mostra aumento na variedade de pesticidas encontrados no rio. Em 2019, foram identificados 20 tipos de produtos. Em 2025, o número subiu para 43. Nos primeiros quatro meses de 2026, já haviam sido detectados 38 tipos de pesticidas.
Relatório anual também deverá ser alterado
As mudanças determinadas pelo MPF também deverão ser feitas no relatório anual da concessionária. O documento deverá detalhar as condições da bacia hidrográfica, as possíveis fontes de contaminação e os resultados mensais das análises da água distribuída.
O relatório também deverá informar o Valor Máximo Permitido para cada substância, conforme as normas do Ministério da Saúde, além do número de amostras coletadas, dos casos em que foram encontrados agrotóxicos e das medidas adotadas para prevenir ou corrigir problemas. Resultados fora dos padrões de qualidade deverão ser identificados com o aviso "Fora dos padrões de potabilidade".
Variação da atrazina ao longo dos anos
Os dados mostram ainda a variação da concentração de atrazina no manancial ao longo dos anos. O maior registro foi em 28 de março de 2024, quando o índice chegou a 0,933 micrograma por litro. Os maiores valores anuais registrados foram de 0,130 µg/L em 2020, 0,188 µg/L em 2021, 0,254 µg/L em 2022, 0,666 µg/L em 2023 e 0,207 µg/L em 2025.
Em 2026, até o período analisado, o maior índice foi de 0,456 µg/L. A preocupação com a substância aumentou após a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) reclassificar, em novembro de 2025, a atrazina e o alaclor como substâncias do Grupo 2A, categoria que reúne agentes considerados provavelmente cancerígenos para seres humanos.
