Tecnologia que pode chegar ao campo: estudo da Embrapa avalia efeitos da nanoprata na agricultura

Pesquisa analisou a ação de nanopartículas de prata sobre microalga e sementes de alface e identificou respostas diferentes conforme a concentração utilizada.

Publicado em 03/09/2026 às 15:34 - do Idest - Em Agronegócio

Cultura de alga com diferentes concentrações de nanopartículas.
Cultura de alga com diferentes concentrações de nanopartículas. (Vera Castro)

Uma tecnologia com potencial de aplicação na agricultura está sendo avaliada por pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente. O estudo analisou os efeitos de nanopartículas de prata, também conhecidas como AgNP, sobre uma microalga e sementes de alface, organismos utilizados como bioindicadores ambientais.

Os resultados mostraram que a resposta depende da concentração utilizada. Em doses mais baixas, foram observados efeitos de bioestimulação, enquanto concentrações maiores apresentaram efeitos inibitórios nos organismos avaliados.

A pesquisa ganha relevância diante do avanço das nanotecnologias na agricultura e da necessidade de avaliar não apenas seu potencial de uso, mas também possíveis impactos sobre organismos que não são o alvo das aplicações.

Nanopartículas têm potencial de uso agrícola

As nanopartículas de prata apresentam propriedades ópticas, elétricas, térmicas e, principalmente, antimicrobianas. Na agricultura, podem ser utilizadas em formulações voltadas à desinfecção de sementes e ao controle de doenças causadas por bactérias.

Após a utilização, porém, essas partículas podem chegar ao solo e à água. Por isso, os pesquisadores buscaram avaliar como organismos presentes nesses ambientes respondem à exposição às AgNP.

Entre os possíveis efeitos adversos associados às nanopartículas estão estresse oxidativo, alterações fisiológicas e reprodutivas e mudanças na estrutura e no funcionamento de comunidades microbianas.

Microalga e alface foram usadas nos testes

Para avaliar os efeitos das nanopartículas, os pesquisadores utilizaram a microalga unicelular Pseudokirchneriella subcapitata e sementes de alface.

A microalga é empregada em estudos de ecotoxicologia aquática, enquanto a alface pode ser utilizada como bioindicador em avaliações relacionadas a ambientes úmidos.

As nanopartículas de prata utilizadas nos experimentos foram fornecidas pela Embrapa Instrumentação.

Nos testes, os efeitos variaram conforme a concentração. Na microalga, concentrações entre 0,1 e 1,0 miligrama por litro provocaram bioestimulação do crescimento. Nas sementes de alface, uma das respostas observadas foi o alongamento das raízes na concentração de 0,01 miligrama por litro.

Concentrações maiores tiveram efeito inibitório

Com o aumento da concentração das nanopartículas, os dois bioindicadores passaram a apresentar efeitos inibitórios.

Para avaliar essa resposta, os pesquisadores calcularam a concentração efetiva média (EC50), parâmetro que indica a concentração capaz de provocar uma redução de 50% na taxa de crescimento do organismo analisado.

Na microalga, a EC50 foi de 3,67 miligramas por litro após 168 horas de exposição. Para a alface, o valor foi de 35,31 miligramas por litro após 96 horas.

Os resultados indicaram maior sensibilidade da microalga às nanopartículas de prata nas condições avaliadas.

Estudo também avaliou segurança ambiental

Os pesquisadores determinaram ainda a concentração sem efeito observado (NOEC), correspondente à maior concentração testada na qual não foram identificados efeitos estatisticamente significativos sobre os organismos avaliados.

Para a Pseudokirchneriella subcapitata, o valor encontrado foi de 0,58 miligrama por litro. Para a Lactuca sativa, foi de 1,45 miligrama por litro.

Segundo os autores, esses dados podem contribuir para a definição de níveis máximos permitidos de nanopartículas de prata em sistemas aquáticos e em áreas próximas a esses ambientes.

Resultados ajudam a avaliar uso da tecnologia

A pesquisa reforça o potencial de aplicação da nanoprata na agricultura, considerando os efeitos observados nos organismos estudados. Ao mesmo tempo, os resultados evidenciam a necessidade de avaliar possíveis efeitos sobre organismos não-alvo.

O uso de bioindicadores permite identificar respostas biológicas que podem contribuir para a avaliação dos riscos ambientais associados a novos materiais empregados na agricultura.

O estudo foi realizado por Claudio Jonsson, Rodrigo Castanha, José Henrique Vallim e Vera Castro, da Embrapa Meio Ambiente, e publicado em maio de 2026 na revista Asian Journal of Agricultural and Horticultural Research.