Preço do bezerro sobe até 40% em Mato Grosso do Sul com menor oferta e efeitos do ciclo pecuário
Pantanal responde por cerca de 40% dos bezerros produzidos no Estado, enquanto a recomposição do rebanho deve levar alguns anos.

O preço dos animais de reposição subiu até 40% nos últimos 12 meses em determinadas categorias e regiões de Mato Grosso do Sul, impulsionado pelo ciclo pecuário e pela menor disponibilidade de bezerros. O movimento reduziu o poder de compra dos pecuaristas, sustentou a cotação do boi gordo e aumentou a importância do Pantanal na produção de animais para reposição do rebanho.
Segundo o Sistema de Inteligência e Gestão Territorial da Bovinocultura de Corte de Mato Grosso do Sul (Sigabov), a arroba do bezerro estava cotada a R$ 395,10 em julho de 2025. O valor avançou nos meses seguintes, atingiu R$ 543,60 em março de 2026 e estava em R$ 464,40 em julho, última referência disponível.
Menor oferta pressiona a reposição
A Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul) informou que o preço do quilo do bezerro acumulou alta de 16% em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto a bezerra valorizou 19%. As demais categorias de reposição também registraram alta nos últimos 12 meses.
A valorização alterou a relação de troca. Em julho, um boi gordo comprava, em média, 1,77 bezerro, ante 1,89 em julho de 2025, o que representa redução de 6,6% no poder de compra.
Para a Famasul, o principal motivo é o ciclo pecuário. O abate elevado de fêmeas nos últimos anos reduziu a quantidade de matrizes disponíveis para reprodução e afetou a oferta de bezerros. Esse efeito passou a aparecer com mais intensidade no mercado de reposição.
Abates recuam, mas participação de fêmeas segue alta
Nos sete primeiros meses de 2026, Mato Grosso do Sul abateu 2,37 milhões de cabeças, 4,9% menos do que no mesmo período de 2025. A participação de fêmeas, porém, permaneceu próxima de 51%.
Mesmo com a redução do volume abatido, a oferta de animais continuou mais ajustada, segundo a Famasul. Em agosto, a arroba do boi gordo ficou acima de R$ 339,00, com alta de 10,6% em 12 meses.
A entidade avaliou que a oferta mais restrita de animais para abate mantém os preços firmes, apesar da redução nos abates.
Pantanal concentra parcela relevante dos bezerros
Com a menor disponibilidade de animais, o Pantanal ganhou importância estratégica para a pecuária estadual. A região responde por cerca de 40% dos bezerros produzidos em Mato Grosso do Sul, segundo o Sistema Novilho Precoce, formado pela Associação Sul-Mato-Grossense de Produtores de Novilho Precoce e pela Cooperativa Novilhocoop.
A relevância da região aumentou com a transformação de áreas tradicionalmente destinadas à cria. Municípios como Ribas do Rio Pardo, Água Clara e Três Lagoas tiveram forte expansão da silvicultura, com o eucalipto ocupando áreas antes usadas pela pecuária.
Nas cotações acompanhadas pelo Sigabov com base em 12 empresas de leilões, a região Sul apresentou o maior valor para o bezerro, de R$ 3.723,54. O Pantanal apareceu em seguida, com R$ 3.209,74, abrangendo municípios como Corumbá, Ladário, Aquidauana, Porto Murtinho e Miranda.
Retenção de fêmeas pode recompor o rebanho
Para Rafael Nunes Gratão, presidente da Associação Sul-Mato-Grossense de Produtores de Novilho Precoce, o cenário é consequência de uma etapa do ciclo pecuário, que ocorre aproximadamente a cada sete anos.
Segundo ele, o descarte excessivo de fêmeas entre 2023 e 2025 reduziu a disponibilidade de bezerros em 2026. A avaliação é de que a situação deve continuar em 2027, com tendência de alta para o bezerro e possível impacto também sobre a arroba do boi gordo.
A Famasul afirmou que os pecuaristas tendem a reter mais fêmeas para reprodução diante da valorização do bezerro. A medida ajuda a recompor o plantel e, posteriormente, aumenta a oferta de animais, mas os efeitos não são imediatos.
Entre a retenção da matriz, a reprodução, o nascimento e o desenvolvimento do bezerro, são necessários alguns anos para que a mudança na formação do rebanho tenha impacto significativo sobre a oferta de reposição.
Custos maiores para recria e engorda
A evolução dos preços dependerá da velocidade de recomposição do rebanho e do comportamento da oferta e da demanda. O cenário favorece produtores que trabalham com cria, mas eleva os custos dos pecuaristas que precisam comprar animais para recria e engorda.
O impacto também pode se estender pela cadeia, sustentando as cotações do boi gordo e pressionando os custos da produção de carne. Nesse contexto, investimentos em cria, reprodução e melhoramento genético ganham espaço como estratégias para aproveitar a valorização do mercado de reposição.
Com uma parcela expressiva da produção estadual de bezerros, o Pantanal passa a ocupar posição ainda mais relevante na pecuária de Mato Grosso do Sul.
