Plano Safra 2026/2027 amplia recursos, mas perde capacidade real de financiamento, avalia Aprosoja/MS

Entidade aponta que crescimento nominal de 1,7% ficou abaixo da inflação acumulada, reduzindo o poder de compra do crédito disponível aos produtores.

Publicado em 01/07/2026 às 13:49 - do Idest - Em Agronegócio

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(Divulgação Aprosoja/MS)

O Plano Safra 2026/2027, lançado pelo governo federal com volume recorde de R$ 525 bilhões destinados a médios e grandes produtores rurais, apresentou aumento nominal dos recursos, mas registrou perda na capacidade real de financiamento devido à inflação acumulada no período. A avaliação é da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul (Aprosoja/MS).

De acordo com levantamento da equipe econômica da entidade, enquanto os recursos anunciados cresceram 1,7% em relação ao ciclo anterior, a inflação acumulada foi de aproximadamente 4,72%. Com isso, o plano apresenta uma redução real de cerca de 2,9% na capacidade de financiamento.

Redução nos recursos para custeio

Segundo a Aprosoja/MS, além do impacto da inflação, houve alteração na composição dos recursos disponibilizados. O montante destinado ao custeio e à comercialização, utilizado pelos produtores para financiar despesas da safra, como aquisição de insumos, sementes, fertilizantes, defensivos e demais custos operacionais, foi reduzido em 7,2%, o equivalente a R$ 29,8 bilhões.

Em contrapartida, os recursos destinados a investimentos tiveram aumento de 38,1%, priorizando linhas voltadas para armazenagem, energia renovável, irrigação, inovação e modernização das propriedades rurais.

Para o presidente da Aprosoja/MS, Jorge Michelc, o Plano Safra continua sendo um importante instrumento de apoio ao setor, mas sua efetividade depende da disponibilidade do crédito ao longo da safra.

"O anúncio dos recursos é importante para o planejamento do setor, mas o produtor precisa olhar além dos valores divulgados. É fundamental que o crédito esteja disponível no momento em que for necessário, com condições que permitam financiar a produção e manter a competitividade da agricultura brasileira", afirmou.

Inflação impacta poder de financiamento

O analista de Economia da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes, destacou que a análise dos números deve considerar os efeitos da inflação sobre os valores anunciados.

"Quando descontamos a inflação, observamos que o crescimento nominal não representa um ganho real na capacidade de financiamento. Além disso, a redução dos recursos destinados ao custeio pode limitar o acesso dos produtores ao crédito utilizado para financiar despesas da safra, como aquisição de insumos e demais custos operacionais", explicou.

A entidade também aponta que a ampliação dos recursos para investimento atende a uma finalidade distinta do crédito de custeio, embora represente oportunidade para produtores interessados em ampliar a capacidade de armazenagem ou modernizar suas propriedades.

"O aumento dos recursos para investimento é positivo, principalmente para projetos estruturantes que aumentam a eficiência das propriedades rurais. Entretanto, ele não substitui a necessidade de crédito para custeio, que é essencial para garantir o plantio e a condução da safra. O equilíbrio entre essas modalidades é importante para atender às diferentes demandas dos produtores", destacou Jorge Michelc.

Participação do Tesouro diminui

Outro ponto observado pela Aprosoja/MS é a redução da participação dos recursos subsidiados pelo Tesouro Nacional, que passaram a representar cerca de 24,8% do total destinado aos investimentos. Dessa forma, aproximadamente 75,2% do financiamento dependerão de recursos das instituições financeiras e das condições de mercado.

Apesar da redução das taxas de juros na maior parte das linhas de crédito, acompanhando a queda da taxa Selic, o analista de Economia da Aprosoja/MS, Linneu Borges Filho, avalia que a origem dos recursos também deve ser considerada.

"A redução das taxas de juros é uma notícia positiva, mas é preciso olhar também para a origem desses recursos. Com uma participação menor do Tesouro Nacional, uma parcela maior do crédito dependerá das instituições financeiras. Isso pode influenciar a disponibilidade e taxas dos recursos ao longo da safra", afirmou.

Pronamp terá aumento de recursos

Para os médios produtores enquadrados no Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), o Plano Safra prevê aumento de 5,1% no volume de recursos e redução da taxa máxima de juros, que passará de 10% para 9% ao ano.

Na avaliação da Aprosoja/MS, além do volume anunciado, será fundamental acompanhar a velocidade de liberação dos recursos, a disponibilidade do crédito nas instituições financeiras e as condições efetivas de contratação ao longo da safra 2026/2027.