“Não é só capim”: novas tecnologias em pastagens podem ampliar produtividade da pecuária
Pesquisador da Embrapa Cerrados destaca novas cultivares de forrageiras e aponta ganhos de produtividade e rentabilidade para a pecuária de corte.

A modernização das pastagens pode representar um importante caminho para aumentar a produtividade e a rentabilidade da pecuária de corte brasileira. O tema foi abordado pelo pesquisador Marcelo Ayres, da Embrapa Cerrados (DF), durante a palestra “Se até o boi mudou, por que seu pasto continua o mesmo?”, realizada na 34ª Expoabra, em Brasília.
Ao falar sobre os desafios e oportunidades do setor, Ayres defendeu uma mudança na forma como as forrageiras são encaradas pelos produtores. Segundo ele, o animal utilizado atualmente na pecuária é diferente daquele de décadas atrás e, da mesma forma, as pastagens precisam acompanhar essa evolução.
“Gostaria de deixar dois pontos claros: o primeiro é que o boi mudou. O boi de hoje não é o mesmo animal de 40, 50 anos atrás. E o segundo ponto é que quando falamos de forrageira e pastagem, estamos falando de tecnologia de ponta”, disse o pesquisador.
Pasto é base da produção
O Brasil possui 160,5 milhões de hectares de pastagens, sendo 62,7 milhões de hectares no Cerrado. O país tem o segundo maior rebanho bovino do mundo, além de ser o segundo principal produtor mundial e o maior exportador. Em 2025, o valor bruto da produção agropecuária nacional foi de R$ 1,3 trilhão, com aproximadamente R$ 250 bilhões correspondentes à pecuária.
De acordo com dados apresentados pelo pesquisador, 80,14% dos animais abatidos no Brasil em 2025 foram terminados a pasto. Para Ayres, essa característica diferencia a produção brasileira e deveria ser mais valorizada no mercado internacional.
Entre os pilares da pecuária estão sanidade, genética, reprodução, nutrição e gestão. No entanto, segundo o pesquisador, existe uma defasagem no uso de cultivares de forrageiras. Ele apontou que 80% das cultivares utilizadas pela pecuária brasileira são tecnologias defasadas, muitas desenvolvidas entre as décadas de 1970 e 1990.
Novas cultivares
Durante a apresentação, Ayres destacou cultivares desenvolvidas pela Embrapa em parceria com a Associação para o Fomento à Pesquisa de Melhoramento de Forrageiras (Unipasto). Os materiais buscam atender desafios como pragas e doenças, escassez de forragem durante a estação seca, valor nutritivo e transição entre as estações.
Entre os exemplos está a BRS Carinás, lançada em abril deste ano. Híbrida de Brachiaria decumbens, apresenta maior biomassa e quantidade de folhas por hectare, além de teores de proteína entre 13% e 14%. Conforme os dados apresentados, também proporciona desempenho animal superior, com taxa de lotação e ganho de peso por hectare de 13 arrobas por hectare ao ano.
A BRS Paiaguás, de B. brizantha, permite estender o período de pastejo na transição entre chuva e seca. Durante a seca, apresentou ganho médio diário por animal cerca de 80% superior ao da BRS Piatã e taxa de lotação aproximadamente 40% maior.
Já a BRS Zuri, de Panicum maximum, é voltada à intensificação do sistema produtivo com pastejo rotacionado. A cultivar apresenta mais folhas, maior qualidade de forragem e resposta à adubação nitrogenada. Em comparação com a cultivar Massai, apresentou ganho médio diário e taxa de lotação entre 10% e 15% superiores nas estações chuvosa e seca.
A BRS Tamani, também de P. maximum, tem porte baixo e abundante massa foliar, características que facilitam o manejo e favorecem sua utilização em sistemas intensivos.
Cultivar adaptada ao Centro-Oeste
Lançada em 2022, a BRS Sarandi, de Andropogon gayanus, é voltada a sistemas de cria e recria e pode ser utilizada em solos de baixa fertilidade, inclusive pedregosos e arenosos.
Segundo Ayres, a cultivar apresenta uma característica importante na transição entre a seca e o período chuvoso: é o primeiro material a rebrotar quando começam as chuvas. O pesquisador sugeriu que o material seja utilizado em 20% a 30% da área da propriedade, especialmente em solos mais rasos e de menor fertilidade.
A recomendação de uso da BRS Sarandi inclui, entre outras regiões, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Os experimentos apresentados pela Embrapa Cerrados apontaram ganhos de 10 a 15 arrobas por hectare ao ano, teor de proteína entre 7% e 11%, produção de 11 a 15 toneladas de pastagem por hectare ao ano e taxa de lotação de 3 unidades animais por hectare.
Potencial de ganho econômico
Os dados apresentados durante a palestra também apontaram diferenças econômicas entre cultivares modernas e materiais mais antigos. Em um ano de produção, a BRS Paiaguás apresentou ganho 7% superior ao da BRS Piatã, equivalente a R$ 1.035 por hectare ao ano a mais.
A BRS Carinás, em comparação com a Basilisk, teve ganho 13% maior, ou R$ 483 por hectare ao ano. A mesma diferença foi apresentada na comparação entre BRS Zuri e Mombaça.
A BRS Tamani apresentou ganho 9% superior ao da Massai, diferença de R$ 1.593 por hectare ao ano. Já a BRS Quênia teve ganho 17% maior que a Mombaça, equivalente a R$ 3.243 por hectare ao ano, enquanto a BRS Sarandi apresentou ganho 20% superior à BRS Planaltina, ou R$ 1.275 por hectare ao ano.
Produtividade ainda é desafio
A apresentação também abordou indicadores de produtividade e reprodução do rebanho brasileiro. Segundo os dados apresentados, a produtividade média nacional é de 67,7 quilos de carcaça por hectare ao ano, mas 76% dos produtores, correspondentes a 1,12 milhão de propriedades, estão abaixo dessa média.
O pesquisador também destacou os índices de reprodução. A taxa média de natalidade é de aproximadamente 60%, enquanto a taxa de desfrute é de 19%. Nesse cenário, ele apontou a existência de 26,3 milhões de matrizes vazias todos os anos.
De acordo com o cálculo apresentado por Ayres, elevar a taxa de desmame de 60% para 80% permitiria ao país produzir mais 16,4 milhões de bezerros. Em uma propriedade com 100 vacas, por exemplo, os 20 bezerros adicionais representariam uma renda de aproximadamente R$ 68 mil, considerando os parâmetros apresentados pelo pesquisador.
Pecuária moderna
Outro comparativo apresentado durante a palestra mostrou diferenças entre o modelo tradicional e a pecuária moderna. No sistema tradicional, o peso médio de carcaça ficava entre 210 e 220 quilos, com idade média ao abate de 36 a 42 meses e rendimento de carcaça entre 50% e 52%.
No modelo moderno apresentado, o peso médio de carcaça varia de 290 a 310 quilos, a idade média ao abate fica entre 18 e 24 meses e o rendimento de carcaça chega a 54% a 56%.
Ao final, Ayres reforçou a necessidade de acompanhar a evolução dos animais também na escolha e no manejo das pastagens.
“Se o boi mudou, temos que mudar o pasto também. Repito: não é só capim, é tecnologia de ponta.”
