“Não é só capim”: novas tecnologias em pastagens podem ampliar produtividade da pecuária

Pesquisador da Embrapa Cerrados destaca novas cultivares de forrageiras e aponta ganhos de produtividade e rentabilidade para a pecuária de corte.

Publicado em 10/09/2026 às 15:12 - do Idest - Em Agronegócio

Pesquisador Marcelo Ayres apresentou as vantagens do uso das cultivares mais modernas de forrageiras tropicais.
Pesquisador Marcelo Ayres apresentou as vantagens do uso das cultivares mais modernas de forrageiras tropicais. (Breno Lobato/Embrapa Cerrados)

A modernização das pastagens pode representar um importante caminho para aumentar a produtividade e a rentabilidade da pecuária de corte brasileira. O tema foi abordado pelo pesquisador Marcelo Ayres, da Embrapa Cerrados (DF), durante a palestra “Se até o boi mudou, por que seu pasto continua o mesmo?”, realizada na 34ª Expoabra, em Brasília.

Ao falar sobre os desafios e oportunidades do setor, Ayres defendeu uma mudança na forma como as forrageiras são encaradas pelos produtores. Segundo ele, o animal utilizado atualmente na pecuária é diferente daquele de décadas atrás e, da mesma forma, as pastagens precisam acompanhar essa evolução.

“Gostaria de deixar dois pontos claros: o primeiro é que o boi mudou. O boi de hoje não é o mesmo animal de 40, 50 anos atrás. E o segundo ponto é que quando falamos de forrageira e pastagem, estamos falando de tecnologia de ponta”, disse o pesquisador.

Pasto é base da produção

O Brasil possui 160,5 milhões de hectares de pastagens, sendo 62,7 milhões de hectares no Cerrado. O país tem o segundo maior rebanho bovino do mundo, além de ser o segundo principal produtor mundial e o maior exportador. Em 2025, o valor bruto da produção agropecuária nacional foi de R$ 1,3 trilhão, com aproximadamente R$ 250 bilhões correspondentes à pecuária.

De acordo com dados apresentados pelo pesquisador, 80,14% dos animais abatidos no Brasil em 2025 foram terminados a pasto. Para Ayres, essa característica diferencia a produção brasileira e deveria ser mais valorizada no mercado internacional.

Entre os pilares da pecuária estão sanidade, genética, reprodução, nutrição e gestão. No entanto, segundo o pesquisador, existe uma defasagem no uso de cultivares de forrageiras. Ele apontou que 80% das cultivares utilizadas pela pecuária brasileira são tecnologias defasadas, muitas desenvolvidas entre as décadas de 1970 e 1990.

Novas cultivares

Durante a apresentação, Ayres destacou cultivares desenvolvidas pela Embrapa em parceria com a Associação para o Fomento à Pesquisa de Melhoramento de Forrageiras (Unipasto). Os materiais buscam atender desafios como pragas e doenças, escassez de forragem durante a estação seca, valor nutritivo e transição entre as estações.

Entre os exemplos está a BRS Carinás, lançada em abril deste ano. Híbrida de Brachiaria decumbens, apresenta maior biomassa e quantidade de folhas por hectare, além de teores de proteína entre 13% e 14%. Conforme os dados apresentados, também proporciona desempenho animal superior, com taxa de lotação e ganho de peso por hectare de 13 arrobas por hectare ao ano.

A BRS Paiaguás, de B. brizantha, permite estender o período de pastejo na transição entre chuva e seca. Durante a seca, apresentou ganho médio diário por animal cerca de 80% superior ao da BRS Piatã e taxa de lotação aproximadamente 40% maior.

Já a BRS Zuri, de Panicum maximum, é voltada à intensificação do sistema produtivo com pastejo rotacionado. A cultivar apresenta mais folhas, maior qualidade de forragem e resposta à adubação nitrogenada. Em comparação com a cultivar Massai, apresentou ganho médio diário e taxa de lotação entre 10% e 15% superiores nas estações chuvosa e seca.

A BRS Tamani, também de P. maximum, tem porte baixo e abundante massa foliar, características que facilitam o manejo e favorecem sua utilização em sistemas intensivos.

Cultivar adaptada ao Centro-Oeste

Lançada em 2022, a BRS Sarandi, de Andropogon gayanus, é voltada a sistemas de cria e recria e pode ser utilizada em solos de baixa fertilidade, inclusive pedregosos e arenosos.

Segundo Ayres, a cultivar apresenta uma característica importante na transição entre a seca e o período chuvoso: é o primeiro material a rebrotar quando começam as chuvas. O pesquisador sugeriu que o material seja utilizado em 20% a 30% da área da propriedade, especialmente em solos mais rasos e de menor fertilidade.

A recomendação de uso da BRS Sarandi inclui, entre outras regiões, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Os experimentos apresentados pela Embrapa Cerrados apontaram ganhos de 10 a 15 arrobas por hectare ao ano, teor de proteína entre 7% e 11%, produção de 11 a 15 toneladas de pastagem por hectare ao ano e taxa de lotação de 3 unidades animais por hectare.

Potencial de ganho econômico

Os dados apresentados durante a palestra também apontaram diferenças econômicas entre cultivares modernas e materiais mais antigos. Em um ano de produção, a BRS Paiaguás apresentou ganho 7% superior ao da BRS Piatã, equivalente a R$ 1.035 por hectare ao ano a mais.

A BRS Carinás, em comparação com a Basilisk, teve ganho 13% maior, ou R$ 483 por hectare ao ano. A mesma diferença foi apresentada na comparação entre BRS Zuri e Mombaça.

A BRS Tamani apresentou ganho 9% superior ao da Massai, diferença de R$ 1.593 por hectare ao ano. Já a BRS Quênia teve ganho 17% maior que a Mombaça, equivalente a R$ 3.243 por hectare ao ano, enquanto a BRS Sarandi apresentou ganho 20% superior à BRS Planaltina, ou R$ 1.275 por hectare ao ano.

Produtividade ainda é desafio

A apresentação também abordou indicadores de produtividade e reprodução do rebanho brasileiro. Segundo os dados apresentados, a produtividade média nacional é de 67,7 quilos de carcaça por hectare ao ano, mas 76% dos produtores, correspondentes a 1,12 milhão de propriedades, estão abaixo dessa média.

O pesquisador também destacou os índices de reprodução. A taxa média de natalidade é de aproximadamente 60%, enquanto a taxa de desfrute é de 19%. Nesse cenário, ele apontou a existência de 26,3 milhões de matrizes vazias todos os anos.

De acordo com o cálculo apresentado por Ayres, elevar a taxa de desmame de 60% para 80% permitiria ao país produzir mais 16,4 milhões de bezerros. Em uma propriedade com 100 vacas, por exemplo, os 20 bezerros adicionais representariam uma renda de aproximadamente R$ 68 mil, considerando os parâmetros apresentados pelo pesquisador.

Pecuária moderna

Outro comparativo apresentado durante a palestra mostrou diferenças entre o modelo tradicional e a pecuária moderna. No sistema tradicional, o peso médio de carcaça ficava entre 210 e 220 quilos, com idade média ao abate de 36 a 42 meses e rendimento de carcaça entre 50% e 52%.

No modelo moderno apresentado, o peso médio de carcaça varia de 290 a 310 quilos, a idade média ao abate fica entre 18 e 24 meses e o rendimento de carcaça chega a 54% a 56%.

Ao final, Ayres reforçou a necessidade de acompanhar a evolução dos animais também na escolha e no manejo das pastagens.

“Se o boi mudou, temos que mudar o pasto também. Repito: não é só capim, é tecnologia de ponta.”