Etanol de milho amplia demanda por biomassa e coloca eucalipto no centro da nova cadeia em MS

Com 1,98 milhão de hectares plantados, Mato Grosso do Sul parte de uma base florestal consolidada, mas expansão das usinas aumenta atenção sobre madeira, logística e custos.

Publicado em 25/09/2026 às 14:43 - do Idest - Em Agronegócio

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(Divulgação Aprosoja/MS - arquivo)

A expansão da produção de etanol de milho em Mato Grosso do Sul está criando uma nova demanda dentro do agronegócio: a biomassa utilizada para gerar energia nas usinas. Nesse cenário, o eucalipto passa a ocupar posição estratégica, especialmente porque as plantas tradicionais de etanol de milho precisam recorrer a fontes externas de biomassa para alimentar suas caldeiras.

Mato Grosso do Sul parte, porém, de uma condição diferente de outros estados do Centro-Oeste. O Estado possui uma cadeia florestal consolidada após mais de uma década de expansão da silvicultura, principalmente vinculada à indústria de celulose.

Dados utilizados pela Aprosoja/MS, por meio do projeto SIGA-MS, apontam 1.985.020 hectares de eucalipto na safra 2025/2026, área que cresceu 15,2% em relação à safra anterior e quase 75% desde 2020/2021. A estrutura foi formada principalmente para abastecer as fábricas de celulose da região de Três Lagoas.

Apesar dessa disponibilidade, a expansão das usinas de etanol de milho acrescenta uma nova variável à cadeia: a necessidade de avaliar onde está a madeira, qual é a finalidade da floresta, quanto custa o transporte e quanto da produção poderá efetivamente ser destinada à geração de energia.

Por que o etanol de milho precisa de biomassa

Diferentemente das usinas de cana-de-açúcar, que podem utilizar o bagaço resultante da moagem como fonte de energia, o milho não deixa uma fibra equivalente para alimentar as próprias caldeiras.

As usinas de etanol de milho precisam, portanto, recorrer a fontes externas de biomassa, principalmente cavacos e resíduos de madeira de eucalipto. Também podem ser utilizados outros resíduos florestais e agrícolas, dependendo da estrutura e da tecnologia de cada planta.

Segundo o informativo da Aprosoja/MS, uma referência utilizada pelo setor é de aproximadamente meia tonelada de cavaco para cada tonelada de milho processada. A quantidade necessária aumenta conforme a capacidade da usina, enquanto a distância entre a floresta e a indústria interfere diretamente no custo do fornecimento.

Para o analista de Economia da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes, a análise precisa considerar mais do que o volume total de florestas plantadas.

“Não basta olhar apenas para a quantidade de madeira disponível no Estado. É preciso avaliar onde essa madeira está, qual é o seu custo de produção e transporte e quanto desse estoque poderá efetivamente ser destinado à geração de energia”.

MS parte de uma base florestal consolidada

A estrutura existente em Mato Grosso do Sul diferencia o Estado de outros polos de expansão do etanol de milho.

Segundo os dados do SIGA-MS apresentados pela Aprosoja/MS, os quase 2 milhões de hectares de eucalipto foram formados ao longo de mais de 15 anos, principalmente para atender às fábricas de celulose instaladas na região de Três Lagoas. A cadeia desenvolvida inclui fornecedores, viveiros, colheita e logística.

O próprio informativo aponta que, atualmente, Mato Grosso do Sul está em uma situação considerada segura, por enquanto, em relação à disponibilidade de biomassa, enquanto Mato Grosso aparece em situação de déficit no comparativo apresentado pela publicação.

A estrutura florestal também já está integrada à geração de energia. Segundo o documento, as fábricas de celulose de Três Lagoas entregam juntas mais de 370 megawatts a partir de biomassa florestal, considerando aproximadamente 150 MW da Suzano e 226 MW da Eldorado Brasil, que também comercializa excedente.

Madeira disponível não significa oferta ilimitada

A existência de uma grande área plantada, entretanto, não significa que toda a madeira esteja disponível para as usinas de etanol de milho.

A madeira de maior qualidade possui destinação para a indústria de celulose. Para a geração de energia das usinas de milho, uma parcela importante da biomassa disponível é composta por resíduos, pontas e desbastes, conforme a análise da Aprosoja/MS.

Além disso, a quantidade de usinas de etanol de milho em Mato Grosso do Sul deve aumentar. O informativo aponta que o número pode passar de quatro unidades em operação para pelo menos seis nos próximos anos, considerando os projetos anunciados, ampliando a demanda local por cavacos.

Para Raphael Gimenes, esse crescimento pode alterar o mercado regional.

“O crescimento da indústria de etanol de milho amplia a demanda por biomassa e cria uma nova variável econômica para o setor.”

Logística pode pesar no preço

Um dos principais pontos de atenção está na distância entre as áreas florestais e as usinas.

Mesmo com uma grande quantidade de eucalipto no Estado, o custo do transporte pode determinar a viabilidade econômica do fornecimento. A Aprosoja/MS destaca que municípios mais distantes do eixo florestal de Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo podem sentir pressão sobre a oferta antes que isso seja percebido no conjunto do Estado.

“Em biomassa, a localização é fundamental. Uma floresta pode estar disponível no Estado, mas, se estiver distante da usina, o custo do transporte pode reduzir ou até eliminar a vantagem econômica desse fornecimento”, explica o analista.

Por isso, a formação do preço da madeira energética por região tende a ganhar importância à medida que novos projetos entram em operação.

Mato Grosso enfrenta cenário de maior pressão

A situação de Mato Grosso ajuda a dimensionar a importância desse fator.

Estudo da Consultoria Agro do Itaú BBA, citado pela Aprosoja/MS, estima que a capacidade instalada de etanol de milho no Brasil poderá passar de 10,9 bilhões de litros em 2025 para 25,3 bilhões de litros em 2030.

Em Mato Grosso, principal polo da atividade, a projeção utilizada no estudo é de crescimento de 6,9 bilhões para 11,9 bilhões de litros no mesmo período.

Para atender à demanda energética projetada para Mato Grosso em 2030, seriam necessários aproximadamente 383 mil hectares de eucalipto, enquanto o Estado possuía cerca de 165,6 mil hectares ao final de 2025. A diferença potencial é de aproximadamente 218 mil hectares.

O comparativo da Aprosoja/MS mostra a diferença de escala: enquanto Mato Grosso aparece com 165,6 mil hectares de eucalipto, Mato Grosso do Sul possui aproximadamente 1,99 milhão de hectares na safra 2025/2026.

Novas usinas ampliam mercado para o milho

Para o produtor de milho, a expansão da indústria também modifica a dinâmica de comercialização.

A instalação de novas plantas cria compradores dentro do próprio Estado e pode aproximar a indústria das regiões produtoras. O informativo cita a unidade da Atvos em Nova Alvorada do Sul como exemplo de projeto que deverá processar centenas de milhares de toneladas de milho por ano.

Em Mato Grosso do Sul, a Inpasa já opera unidades em Dourados e Sidrolândia. A planta de Sidrolândia, após ampliação autorizada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), passou a ter capacidade anual de 800 milhões de litros de etanol, além de 480 mil toneladas de DDGS, 46 mil toneladas de óleo de milho e 465 GWh de energia elétrica renovável.

Os coprodutos também ampliam a integração da indústria com outras atividades do agronegócio. Segundo o informativo, somente a unidade de Sidrolândia produz 480 mil toneladas de DDGS e 46 mil toneladas de óleo de milho por ano, produtos utilizados como insumos para a cadeia de alimentação animal.

“A transformação do milho dentro do próprio Estado agrega novas possibilidades de comercialização e cria demanda por serviços, logística, energia e outros insumos. Para o produtor, o efeito precisa ser analisado considerando toda a cadeia, e não somente o preço pago pelo grão”, pontua Raphael.

Atvos inicia novo projeto em Nova Alvorada do Sul

Outro movimento ocorre em Nova Alvorada do Sul, onde a Atvos iniciou, em julho de 2026, a construção de sua primeira planta de etanol de milho no Estado, integrada à unidade Santa Luzia.

O projeto prevê capacidade para processar 642 mil toneladas de milho por ano e produzir 273 milhões de litros de etanol, além de 183 mil toneladas de DDG e 13 mil toneladas de óleo de milho. O investimento anunciado é superior a R$ 1 bilhão.

A estrutura será integrada às operações já existentes de cana-de-açúcar, bioeletricidade e biometano.

É importante diferenciar as fontes utilizadas nessas atividades. A planta de biometano da Atvos, também em Nova Alvorada do Sul, utiliza vinhaça e torta de filtro, resíduos da produção de cana, e recebeu investimento superior a R$ 350 milhões.

A integração das diferentes atividades reforça o aproveitamento de matérias-primas e resíduos dentro dos complexos agroindustriais.

Eucalipto pode se tornar alternativa de renda

O aumento da demanda por biomassa também pode abrir espaço para a produção florestal como fonte complementar de renda.

A Aprosoja/MS aponta que essa possibilidade ainda precisa ser avaliada caso a caso e não representa uma corrida generalizada para o plantio de eucalipto no Estado. A base florestal continua concentrada principalmente nos grandes grupos de celulose e nas próprias usinas.

Uma alternativa mencionada no informativo são os contratos de fomento florestal plurianuais, que podem permitir a participação de produtores com áreas de pastagens degradadas ou áreas marginais.

A orientação apresentada é que produtores interessados avaliem diretamente com as usinas da região a existência de programas de fomento florestal.

Resíduos também ganham valor

A expansão dos complexos industriais também amplia o aproveitamento de resíduos.

A Atvos anunciou uma unidade de biometano em Nova Alvorada do Sul a partir de vinhaça, com investimento de R$ 350 milhões. O projeto é apresentado no informativo como exemplo da utilização de resíduos além da produção de combustível.

Essa integração entre diferentes cadeias pode ampliar o aproveitamento econômico de subprodutos agrícolas e industriais.

O que acompanhar nos próximos anos

Apesar da estrutura florestal consolidada, Mato Grosso do Sul ainda não possui um estudo público equivalente ao levantamento do Itaú BBA para Mato Grosso que dimensione especificamente um eventual déficit ou superávit de biomassa energética diante da expansão projetada do etanol de milho.

Por isso, a Aprosoja/MS aponta três indicadores que devem ser acompanhados nas próximas safras: a velocidade de implantação das novas usinas, o comportamento regional dos preços da madeira energética e a distância entre as áreas florestais e os polos consumidores.

A área de eucalipto também deve ser observada nos municípios que integram o corredor florestal-energético, entre eles Sidrolândia, Dourados, Maracaju, Nova Alvorada do Sul, Ribas do Rio Pardo e Três Lagoas, devido aos possíveis efeitos sobre preços, terras e arrendamentos.

“O produtor precisa acompanhar esse movimento porque a expansão do etanol de milho pode gerar efeitos em diferentes mercados ao mesmo tempo: milho, madeira, terras, arrendamento, logística e coprodutos. A informação antecipada é importante para que as decisões sejam tomadas com base na realidade econômica de cada região”, conclui Raphael.

Com uma base florestal formada ao longo de mais de uma década e uma indústria de biocombustíveis em expansão, Mato Grosso do Sul parte de uma condição diferente de outros estados do Centro-Oeste. O desafio dos próximos anos será acompanhar o ritmo de crescimento da demanda e entender como a relação entre milho, eucalipto, biomassa e energia poderá alterar custos, preços e oportunidades dentro da cadeia produtiva.