Estudo revela nova espécie de bactéria associada ao “mal do olho” em bovinos
Descoberta foi feita por pesquisadores da Embrapa em parceria com UFJF e Instituto Biológico de São Paulo e pode contribuir para aprimorar vacinas e diagnósticos.

Um estudo liderado por pesquisadores da Embrapa, em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e o Instituto Biológico de São Paulo, resultou na descoberta e descrição de uma nova espécie de bactéria, batizada de Moraxella tarda. O microrganismo foi isolado da mucosa nasal de bovinos da raça Hereford que apresentavam sinais iniciais de ceratoconjuntivite infecciosa bovina (CIB), conhecida entre produtores como “cerato”, “mal do olho” ou pinkeye.
Descoberta começou no Rio Grande do Sul
O trabalho de identificação teve início com coletas de campo realizadas na Embrapa Pecuária Sul, no Rio Grande do Sul. As análises bioquímicas, fisiológicas e genômicas foram posteriormente aprofundadas nos laboratórios da Embrapa Gado de Leite, em Minas Gerais, e da Embrapa Gado de Corte, em Mato Grosso do Sul.
O trabalho integrado permitiu detalhar a estrutura genética da bactéria e identificar diferenças em relação a espécies já conhecidas na medicina veterinária, como Moraxella bovis e Moraxella bovoculi.
A descoberta começou a partir de estudos de seleção de animais resistentes à ceratoconjuntivite, realizados com bovinos Hereford criados no bioma Pampa.
Segundo a pesquisadora Emanuelle Gaspar, os primeiros indícios surgiram durante um estudo iniciado em 2014, em Bagé (RS). Durante uma checagem de rotina, os pesquisadores identificaram um sinal atípico que levantou a suspeita de uma nova espécie de Moraxella.
Nova espécie tem características genéticas próprias
A denominação Moraxella tarda está relacionada à principal característica fisiológica identificada pelos pesquisadores: o crescimento mais lento em comparação com outros agentes do mesmo gênero.
Segundo Robert Domingues, primeiro autor do artigo, enquanto as análises laboratoriais normalmente são realizadas após 24 horas, a nova bactéria apresentava colônias pequenas, brilhantes e peroladas somente após 48 horas de incubação.
O sequenciamento completo do genoma e a análise comparativa do DNA confirmaram que a M. tarda possui identidade genômica própria e não é uma variação de Moraxella bovis ou Moraxella bovoculi.
A bactéria apresentou o menor genoma já registrado para o gênero Moraxella, com cerca de 1,8 milhão de bases, e 99,2% do mapa de DNA foi lido. A análise identificou ainda 1.930 genes codificadores e um sistema imunológico próprio, chamado CRISPR.
Também foram identificados potenciais genes relacionados à resistência a antibióticos e à patogenicidade, embora esses aspectos ainda precisem de validação prática. A comparação com outras espécies do gênero apresentou similaridade entre 77% e 79%, abaixo do limite de 95% utilizado para classificar indivíduos como pertencentes à mesma espécie.
Descoberta pode ajudar no desenvolvimento de vacinas
A caracterização da Moraxella tarda levanta novas hipóteses sobre o papel das espécies do gênero Moraxella na ceratoconjuntivite e abre espaço para investigar se a presença da nova bactéria pode estar relacionada às diferenças de eficácia observadas em algumas estratégias de controle da doença.
Para o pesquisador da Embrapa Fernando Cardoso, a descoberta pode contribuir para o desenvolvimento de vacinas que contemplem diferentes agentes.
“As vacinas são feitas a partir dos agentes conhecidos. Se existe um agente desconhecido e não incluído na vacina, o imunizante não protege contra aquele agente, e os animais adoecem, mesmo vacinados.”
Segundo o pesquisador, a identificação da nova espécie é importante para estudos voltados a vacinas polivalentes, além da seleção de animais mais resistentes e de outras estratégias de manejo.
Entenda a doença
A Ceratoconjuntivite Infecciosa Bovina (CIB) é uma enfermidade ocular que afeta principalmente bezerros de raças europeias. A doença provoca inflamação, dor, lacrimejamento e úlceras na córnea e pode resultar na perda parcial ou total da visão.
A dor contínua pode reduzir o apetite e o ganho de peso dos animais, enquanto a necessidade de tratamento aumenta o trabalho de manejo na propriedade rural.
Embora a Moraxella bovis seja historicamente considerada o agente clássico da doença, estudos apontam uma diversidade maior de bactérias envolvidas nos casos de CIB.
Em um estudo realizado durante um surto em novilhas da raça Holandesa em Minas Gerais, a doença atingiu 72% dos animais jovens. A análise identificou conjuntamente Moraxella bovoculi e, pela primeira vez no Brasil, Moraxella oculi, sem a presença de M. bovis nas lesões dos animais afetados.
Pesquisas continuam
A identificação da nova espécie também integra pesquisas voltadas à seleção genética de animais com maior resistência à CIB. Estudos conduzidos pela Embrapa Pecuária Sul, Conexão Delta G e Gensys, com apoio da Associação Brasileira de Hereford e Braford, demonstraram que essa resistência possui componente genético e pode ser incorporada a programas de melhoramento.
Os próximos estudos buscam aprofundar o conhecimento sobre a resistência dos animais e a interação com diferentes espécies de Moraxella, incluindo a nova bactéria.
Uma das etapas prevê o uso de um modelo laboratorial baseado no cultivo de córneas coletadas em frigoríficos, substituindo testes invasivos em animais vivos. Os tecidos mantidos em meio de cultura permitem estudar a interação entre as bactérias e as células da córnea, utilizando técnicas como sequenciamento de RNA e qPCR.
A metodologia também permite realizar estudos sobre resistência genética, vacinas e medicamentos sem submeter os animais a infecções experimentais ou outros procedimentos que causem sofrimento.
