Déficit de armazenagem revela gargalos de infraestrutura nos principais polos de grãos de MS
Levantamento da Aprosoja/MS aponta que 71 dos 78 municípios produtores têm capacidade inferior à necessidade de armazenamento; São Gabriel do Oeste tem déficit de 565,5 mil toneladas.

O crescimento da produção de grãos em Mato Grosso do Sul vem acompanhado de um desafio de infraestrutura: a capacidade de armazenagem não acompanha a necessidade dos principais polos produtores do Estado. Levantamento da Aprosoja/MS aponta um déficit de aproximadamente 12 milhões de toneladas na estrutura disponível.
Na safra 2025/2026, Mato Grosso do Sul deverá produzir 27,9 milhões de toneladas de soja e milho. Para atender à recomendação técnica da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), seriam necessários 29,22 milhões de toneladas de capacidade de armazenamento. Atualmente, o Estado possui 17,19 milhões de toneladas, o equivalente a 58,8% da capacidade recomendada.
Os dados integram o Projeto SIGA-MS, executado pela Aprosoja/MS com recursos do Fundems/Semadesc, e estão reunidos no Painel de Armazenagem disponibilizado pela entidade.
Principais polos concentram produção e déficit
O levantamento mostra que o problema está distribuído por grande parte do Estado. Dos 78 municípios produtores de grãos, 71 apresentam déficit de armazenagem.
Entre os principais polos produtores, São Gabriel do Oeste aparece com um dos maiores déficits. O município tem produção média de 1.130.738 toneladas, necessidade de armazenagem de 1.356.886 toneladas e capacidade instalada de 791.313 toneladas.
Com isso, o saldo entre a capacidade disponível e a necessidade é negativo em 565.573 toneladas, com cobertura de 58%.
O município também aparece entre aqueles que concentram grande parte da estrutura de armazenagem estadual. São Gabriel do Oeste, Dourados, Sidrolândia, Maracaju e Ponta Porã reúnem 49,9% da capacidade de armazenagem identificada em Mato Grosso do Sul, embora respondam por 37,6% da produção considerada no estudo.
Gargalos também aparecem no norte
Na região norte, o painel aponta déficits em diferentes municípios. Sonora tem déficit de 297.833 toneladas, enquanto Bandeirantes apresenta saldo negativo de 237.734 toneladas.
Também aparecem com déficit Jaguari, de 257.694 toneladas; Rio Verde de Mato Grosso, de 159.697 toneladas; Camapuã, de 113.899 toneladas; Pedro Gomes, de 75.493 toneladas; Coxim, de 51.710 toneladas; e Rio Negro, de 23.993 toneladas.
Estado tem 799 complexos armazenadores
Atualmente, Mato Grosso do Sul possui 17,19 milhões de toneladas de capacidade estática, distribuídas em 799 complexos armazenadores presentes em 65 municípios.
Dourados apresenta a maior capacidade, com aproximadamente 2,42 milhões de toneladas, e está entre os sete municípios que apresentam saldo positivo entre a estrutura disponível e a necessidade calculada.
Também estão nessa condição Bataguassu, Batayporã, Porto Murtinho, Sidrolândia, Brasilândia e Três Lagoas.
Para o analista de Economia da Aprosoja/MS, Raphael Gimenes, o cruzamento entre capacidade estática, produção agrícola e recomendação da FAO evidencia um déficit estrutural que pode comprometer a competitividade do agronegócio sul-mato-grossense a médio e longo prazo.
Infraestrutura logística amplia o desafio
O levantamento também relaciona a armazenagem com as principais estruturas de transporte do Estado.
Cerca de 41% da capacidade de armazenagem de Mato Grosso do Sul está concentrada em unidades localizadas em um raio de até 30 quilômetros da BR-163. Considerando as rodovias federais, o percentual chega a 88,6%.
Na ferrovia, o cenário é diferente. Embora o Estado possua 1.581 quilômetros de malha ferroviária, apenas 378 quilômetros apresentam circulação regular.
O levantamento identificou 306 unidades de armazenagem em um raio de até 30 quilômetros das ferrovias existentes, correspondendo a 41,6% da capacidade estadual. Próximo à Malha Norte, única com operação regular, estão 7,9% da capacidade.
As hidrovias representam uma parcela ainda menor: apenas 3,9% da capacidade de armazenagem está localizada em um raio de até 30 quilômetros dos corredores hidroviários analisados.
Rota Bioceânica pode diversificar escoamento
O estudo também aponta a Rota Bioceânica como uma oportunidade para diversificar as alternativas logísticas de Mato Grosso do Sul, conectando o Estado aos portos do norte do Chile e ao Oceano Pacífico.
Nesse cenário, a expansão da infraestrutura de armazenagem deverá acompanhar a consolidação do corredor. Porto Murtinho, na ponta brasileira da rota, já apresenta superávit de armazenagem, enquanto o estudo aponta que a expansão da capacidade no Oeste e no Sudoeste precisa acompanhar a consolidação do corredor.
Déficit acompanha expansão da produção
Os dados históricos reunidos no painel indicam um descompasso entre o crescimento da produção agrícola e a expansão da infraestrutura de armazenagem.
Em 2023, o Estado registrou o maior déficit da série histórica analisada, de 21,53 milhões de toneladas. Naquele ano, a necessidade de armazenagem chegou a 35,07 milhões de toneladas, em um período marcado pela maior produção de grãos do Estado.
O painel reúne informações da base nacional de armazenagem da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do levantamento de campo do SIGA-MS. O estudo considera exclusivamente a produção de soja e milho. Para a soja, é utilizada a média das safras de 2021/22 a 2025/26. Para o milho, são consideradas as cinco últimas safras encerradas, de 2020/21 a 2024/25.
