Ansiedade e estresse podem explicar crença em "fake news", dizem especialistas

Anúncio contra notícias falsas no metrô de Londres.
Imagem: Henry Nicholls/Reuters

Para evitar desconforto emocional, indivíduos tendem a acreditar no que valida o seu sistema de crenças. Fenômeno conhecido como "viés da informação" foi tema de congresso de psicologia nos Estados Unidos.

10/08/2018 às 12:35 | Bem Estar/Globo.com

O fenômeno das notícias falsas, as "fake news", tem levantado discussões em todos os ramos de especialidade -- inclusive na psicologia. Especialistas presentes em Congresso da Associação Americana de Psicologia, que acontece até o dia 12 de agosto em São Francisco (EUA), também estão desenvolvendo estudos na tentativa de entender o porquê somos suscetíveis às notícias falsas.

Psicólogos acreditam que, para evitar estresse e processos ansiosos, as pessoas tendem a acreditar em notícias que não abalem o seu sistema de crenças -- independente delas serem verdadeiras ou não. Ainda, para corroborar o que acreditam, elas podem recorrer igualmente à ficção e à realidade.

O fenômeno é também conhecido como "viés da informação" -- e diz respeito à tendência que todos nós temos de aceitar as informações que confirmam nossas crenças, enquanto rejeitamos e ignoramos aquilo que contraria aquilo em que acreditamos.

Cristiano Nabuco, psicólogo e pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, explica que o processo é conhecido como "teoria da dissonância cognitiva". Grosso modo, segundo a teoria, para evitar abalar o seu sistema de crenças, o indivíduo tende a não escutar o que o outro diz para não desconstruir o mapa mental que sustenta sua identidade. O psicólogo explica a formação desse "mapa": 

Como o mapa mental é formado

  1. De 0 a 7 anos, a criança recebe os primeiros pacotes de informação passivamente;
  2. De 7 a 14 anos, ela começa a validar todo o processo de informação que recebeu;
  3. A partir dos 14 anos, os jovens percebem que muitos desses valores não servem: ou seja, não estão em consonância com aquilo que vivem ou sentem. Com isso, elas começam a criar o seu próprio mapa pessoal. "Mas esse processo de refutação não é simples. O mapa pessoal vai ser mesclado com o antigo, em uma consonância cognitiva", diz Nabuco.

Apesar das informações passarem por um crivo na adolescência, dizem especialistas, muitas dessas crenças adquiridas na infância permanecem, vão para um plano do inconsciente -- e não passam por um bom exame crítico na idade adulta.

"Na medida em que que as pessoas atingem a idade adulta, muitas dessas falsas crenças e preconceitos formados quando crianças, em vez de receberem um bom exame crítico, são simplesmente aceitas e continuam a influenciar como ela percebe o mundo", citou Mark Whitmore, pesquisador da Universidade de Kent, presente no congresso da Associação Americana de Psicologia.

Segundo Nabuco, depois desses processos, o indivíduo que não aprendeu a ser flexível, vai fazer de tudo para que outras informações não coloquem em risco o seu processo de coerência interna.

"Para não ter uma dissociação cognitiva, alguns indivíduos tendem a não escutar o que está sendo dito. A pessoa simplesmente nega aquilo que está ouvindo para não colocar em risco o seu processo de coerência interna" -- Cristiano Nabuco, psicólogo e pesquisador na Universidade de São Paulo.

E como as notícias falsas entram nesse processo? Segundo Whitmore, as crenças da infância servem como uma estrutura para o processamento de informações na vida adulta. Para isso, ele diz, não vai interessar se a notícia é falsa ou verdadeira.

"Na tentativa de confirmar ideias preconcebidas, uma pessoa pode recorrer à ficção e à realidade para preservar essas crenças" - Mark Whitmore.

Para Whitmore, a internet apenas agravou o problema -- aumentando a escala de notícias recebidas, já que as informações vêm agora de diferentes emissores. Outro ponto é que, na rede, as mensagens são simultâneas e contraditórias.

"O receptor é frequentemente confrontado com mensagens paradoxais. Torna-se mais fácil agarrar-se a uma ficção simples do que a uma realidade complicada", explica.

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