Mato Grosso do Sul terá grupo de trabalho para monitorar mosca-dos-estábulos

Formatado nos moldes de São Paulo, grupo de trabalho deverá contar com a participação da Iagro, Agraer, Imasul, Biosul, Famasul e Assomasul.

06/11/2017 às 16:17 | da Redação, Kelly Ventorim com informações de Kadijah Suleiman

Depois de participar do 8º Workshop sobre mosca-dos-estábulos, voltado para técnicos de usinas de produção de açúcar e álcool, realizado pela Embrapa e Associação dos Produtores de Bioenergia de Mato Grosso do Sul (Biosul), no mês passado, em Campo Grande, o superintendente de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia, Produção e Agricultura Familiar, Rogério Beretta, trouxe o assunto para ser discutido com técnicos da Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural (Agraer) e da Agência Estadual de Defesa Sanitária Animal e Vegetal (Iagro), na Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar (Semagro).

Superintendente Rogério Beretta fala da importância da formação do grupo de trabalho.

A ideia, segundo Beretta, foi levar ao conhecimento dos técnicos o que a Embrapa vem desenvolvendo sobre o tema e tratar da criação de um grupo de trabalho para colocar a mosca-dos-estábulos permanentemente no radar do Governo do Estado, unindo as vinculadas da Semagro (Agraer, Iagro e Imasul), a Associação dos Produtores de Bioenergia do MS (Biosul), a Federação da Agricultura e Pecuária de MS (Famasul) e a Associação dos Municípios de Mato Grosso do Sul (Assomasul).

Na oportunidade, o chefe adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Paulo Henrique Duarte Cançado, falou da experiência do estado de São Paulo e detalhou sobre o grupo de trabalho formado lá, tratando inclusive das normas e destacando o envolvimento de instituições representativas do setor sucroenergético.

Paulo Henrique Duarte Cançado, falou da experiência do Estado de São Paulo.

Paulo repetiu o alerta feito no Workshop dando conta de surtos por mosca-dos-estábulos e comentando os prejuízos causados aos pecuaristas com propriedades próximas a usinas de cana-de-açúcar, região considerada área de risco.

Com surtos se repetindo nos últimos anos, Paulo destacou os cinco estados mais prejudicados, sendo São Paulo com mais de cem municípios afetados; Mato Grosso do Sul com 12 municípios; Minas Gerais com oito municípios; seguidos por Goiás e Mato Grosso. Lembrando que existem surtos não relacionados a usinas em estados como Pará, Bahia, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Mato Grosso, Goiás e Minas Gerais.

Segundo Paulo, sempre que houver uma atividade de agricultura industrializada e, consequentemente, a geração de um grande volume de resíduos agrícolas, próxima à pecuária, existe o risco de surtos ocasionais de mosca-dos-estábulos, que usam os resíduos como ambiente para reprodução.

Além dos resíduos da fazenda, ambiente natural da mosca, o uso inadequado de adubos orgânicos, como a cama-de-frango, são ambientes propícios à reprodução dos insetos. Quando a mosca sai da fazenda do pecuarista e vai para esses ambientes de resíduos agrícolas, onde não há atividade pecuária, ela tem a vantagem de não encontrar predadores naturais, como vespinhas, ácaros e predadores microscópicos (fungos e bactérias).

Na questão do controle químico da mosca-dos-estábulos, atualmente há um excesso no uso de inseticidas por pecuaristas e nas usinas, o que causa ampla disseminação de resistência a piretroides. A afirmação é do pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Thadeu Barros, que está trabalhando na finalização de um projeto sobre controle químico da mosca, financiado pela Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado do Mato Grosso do Sul (Fundect), com a intenção de chegar o mais próximo possível da realidade, principalmente das usinas que têm produção em larga escala e em curto prazo, fazer recomendações sobre esse controle químico.

Participaram da reunião com os técnicos, além de Beretta, Tadeu Barros e Paulo Henrique Duarte Cançado, o gerente de Meio Ambiente/Agrícola da Biosul, Erico Paredes e o diretor-executivo da Iagro, Roberto Bueno.

Técnicos da Semagro, Agraer e Iagro participaram da reunião.

A mosca

De acordo com artigo escrito pelos pesquisadores Paulo Cançado e Thadeu Barros, a mosca-dos-estábulos (Stomoxys calcitrans) é comum em todo o país e se alimenta de sangue de vários animais, principalmente equinos e bovinos, além de animais silvestres e, eventualmente, o homem. Embora parasite outros animais de criação, os bovinos são os mais afetados, com perdas de 10% a 30% no ganho de peso e até 50% de redução na produção leiteira. A estimativa é de que os prejuízos causados por esta mosca no Brasil podem atingir a US$ 350 milhões anualmente.

Embora as infestações sejam mais comuns em gado de leite, devido ao desenvolvimento das larvas da mosca em resíduos de alimentos e dejetos animais acumulados nas propriedades, explosões populacionais (surtos) da mosca-dos-estábulos têm sido cada vez mais frequentes também em gado de corte.

Ainda de acordo com o texto, apesar dos anseios da sociedade, não existe solução para o problema no curto prazo. Embora comprovada a relação entre fazendas de gado e usinas alcooleiras na dinâmica dos surtos, vários aspectos importantes sobre a epidemiologia do inseto ainda são pouco conhecidos e precisam ser investigados. Nesse sentido, a Embrapa tem desenvolvido pesquisas visando tecnologias que permitam prevenir ou reduzir significativamente o problema.

O pesquisador Paulo Cançado explica que um dos motivos para a dificuldade no combate à mosca é o pouco conhecimento sobre o inseto, que nunca foi considerado um grave problema no mundo. A mosca-dos-estábulos passou a ser um problema grave a partir da industrialização da agricultura, o que é recente.

“No caso especifico da cana-de-açúcar no Brasil, ocorre por conta da proibição da queima, no início dos anos 2000, e uma grande expansão da indústria de etanol, que aumentou muito a quantidade de usinas e expandiu a produção da cana de açúcar. Nos últimos 5 ou 6 anos, foi expressivo o aumento de produção de cana em Mato Grosso do Sul, por exemplo. Como uma questão nova, ainda não conta com tecnologias prontas, além de ter pouquíssimas pessoas trabalhando com pesquisa sobre a mosca-dos-estábulos”, finaliza o pesquisador.

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