Empresa de fachada `clonou` avião para esconder tráfico de cocaína

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Segundo a delegada Ana Cláudia Medina, equipes cumpriram mandados em um hangar de São Gabriel do Oeste.

05/08/2017 às 07:23 | Correio do Estado

A Delegacia de Operação de Combate ao Crime Organizado (Deco) deflagrou a Operação Narcos, terceira fase da Operação Ícaro, que desde 2015 apura manutenções irregulares de aeronaves em Mato Grosso do Sul.

O alvo foi a empresa Dínamo Empreendimentos, localizada Vila Carvalho, em Campo Grande. A ação dos policiais aconteceu nesta sexta-feira.

O proprietário, um piloto cuja a identidade não foi revelada, clonou os dados da aeronave Baron prefixo PT-WMV para despistar envolvimento com o tráfico de drogas após queda com cocaína na Bolívia.

Ele e o auxiliar financeiro foram as primeiras pessoas do Brasil presas pelo crime de atentado a segurança de voo.

Segundo a delegada Ana Cláudia Medina, responsável pelas investigações, equipes cumpriram mandados na Capital, em Ponta Porã, onde o piloto foi preso, e em um hangar de São Gabriel do Oeste.

Ao todo, foram expedidos três mandados de prisão preventiva, mas em um deles não foi possível encontrar o investigado, que agora está foragido.

Houve também três mandados de condução coercitiva e sete de busca e apreensão, dentre os quais três eram de aeronaves.

Ao longo dos trabalhos de apuração foi descoberto que os mesmos mecânicos envolvidos na primeira fase da Ícaro, por operar de forma irregular em oficinas clandestinas, participaram das modificações para que o Baron pudesse transportar entorpecentes.

O esquema veio à tona no ano passado, quando a Dínamo denunciou à Polícia Civil o furto do avião Baron, avaliado em aproximadamente R$ 1 milhão, de dentro do Aeroporto Teruel.

“A perícia analisou o local, que tem boa segurança, e não encontrou indícios que tenha havido, de fato, algum furto. Por isso o caso foi repassado para a Deco, para apurarmos falsa denunciação de crime”, explicou Medina.

 

QUEDA

A partir de então, a unidade especializada chegou à informação de que o Baron havia caído na Bolívia, na fronteira com Corumbá, em novembro de 2016, quando um dos tripulantes morreu.

O piloto teria sido resgatado por traficantes que dominam a área e desde então é dado como desaparecido. Autoridades bolivianas estiveram no local da queda e encontraram o corpo e vestígios de cocaína nas proximidades.

“Estivemos na fronteira e vimos que a aeronave estava toda preparada para o transporte de entorpecentes, pois os bancos haviam sido removidos e existia tanques de combustível”, explicou. À esta altura, a suspeita de falsa denunciação foi concretizada e a polícia passou a trabalhar no caso do tráfico de drogas. 

Por sua vez, o piloto dono da empresa, ao notar que as autoridades não haviam acreditado na história do furto, se articulou e conseguiu outro Baron semelhante ao primeiro, e passou a caracterizá-lo com as mesmas cores e prefixo.

Entretanto, em dezembro a falsficação foi descoberta, levando a polícia a se aprofundar ainda mais. “Quem estava participando da clonagem e das manutenções eram mecânicos já investigados na Operação Ícaro, da empresa TK [Aviação]”. A empresa Dínamo era usada como fachada para acobertar as atividades ilícitas do proprietário. “A empresa não tem estrutura, mas tinha uma aeronave avaliada em quase R$ 1 milhão”, completou.

 

OPERAÇÃO ÍCARO

A operação foi deflagrada na manhã do dia 29 de outubro de 2015, junto com técnicos da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), por meio da denúncia feita pelo dono de uma oficina instalada no Aeroporto Santa Maria, em Campo Grande.

A vítima relatava que algumas peças de aviões teriam sido furtadas de seu estabelecimento. Os fatos vinham ocorrendo há cerca de dois anos, mas só puderam ser comprovados neste ano.

A Deco se incumbiu do caso e chegou à TK Aviação, localizada nas imediações do Rádio Clube, onde estavam inúmeras peças sem registro. Um avião foi apreendido no aeroporto, pois estava com a hélice e um cubo de hélice furtados. O dono foi solicitado para prestar esclarecimentos.

Todo o material apreendido chamou a atenção da polícia que notou o risco iminente oferecido à segurança aérea no estado, levando em conta a irregularidade das manutenções.

As peças apreendidas, quase um caminhão lotado, não tinham homologação e foram periciadas para saber sua origem, ou até mesmo se estão entre as furtadas. Além do crime de furto, os três sócios da TK também respondem por colocar as aeronaves em risco ao instalar peças não homologadas, dentro de uma oficina clandestina. 

A segunda fase, intitulada de Asas do Pantanal, aconteceu em outubro do ano passado, junto com peritos e técnicos do Serviço Regional de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Seripa), nas buscas pelos destroços do avião que caiu em Miranda, matando o piloto Marcos Davi Xavier, de 36 anos. A suspeita era de que a aeronave tivesse apresentado problemas depois de passar por manutenção clandestina.

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